A VIDA É SIMPLES

Houve o dia em que Gregório decidiu parar de pensar. O pensar cotidiano era cansativo demais, demandava forças que iam além do que suportavam seus pesados quarenta anos. Todos os assuntos eram complicados, se fossem pensados de perto – e Gregório estava cansado disso.

Já aprendera o que precisava para a vida, tudo seria mais tranqüilo se não pensasse - pensou.

Primeiro, decidiu que não iria mais ler os inúmeros livros novos que o aguardavam impávidos nas estantes de sua casa e das bibliotecas. Mas quando principiou a reler as obras já conhecidas, percebeu o quão difícil seria sua tarefa: cada leitura era novo descortino, aprendizagem diferente, agradável convite. Para não sucumbir à armadilha, decidiu parar. Porque o vício era incurável, permitiu-se apenas a leitura de revistas sobre fofocas de televisão, porque estas não ofereciam o perigo do pensamento.

Também parou de ir ao teatro, porque não há peça que não traga consigo a dor de pensar. Quem vai ao teatro pensa - e Gregório já não queria este peso.

Os filmes que havia assistido transformaram-se em memória inútil, e já não os discutia nas infindáveis rodas de debate que antes conformavam sua vida – cansado. Passou a assistir, apenas para passar o tempo, aqueles filmes nos quais os heróis musculosos salvam a bela mocinha após liquidarem quinhentos perigosos bandidos com uma bazuca, porque estes – tal como as revistas de televisão – eram imunes à ameaça do pensamento.

E por tudo isso, Gregório acabou trocando de amizades, abandonado pelos amigos menores, que não entendiam sua escolha e consideravam sua decisão um retrocesso. Passou a deliciar-se com as novas conversas que lhe exigiam tão pouco, meras trocas de palavras nas filas do banco ou do mercado, porque não havia necessidade de pensar no lugar comum. Estava chegando à simplicidade, à vida mais fácil.

Quando, certa noite, deu-se conta de que assistia impassível e sorridente a um programa de auditório no qual o apresentador atirava tortas no rosto de espectadores em troca de certa quantia em dinheiro, percebeu que havia chegado ao estágio do não-pensar que desejara desde o início de sua resolução. Se pensassem por ele, melhor – nada mais cômodo poderia existir, decidiu. E foi dormir, feliz, enquanto esquecia de desligar a televisão.

Na manhã seguinte, quando acordou, Gregório havia se transformado numa imensa barata.


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