O FIM DO MUNDO

Quando Jerônimo colocou uma faixa no muro de sua casa anunciando que o mundo acabaria no próximo sábado e que só os verdadeiros crentes se salvariam, os vizinhos pouco deram atenção. Acharam que não era nada mais do que outra maluquice daquele homem solitário, de olhar sempre parado. Os dias estavam lindos, pensaram todos: nenhuma chance de o mundo acabar tão rápido.

Jerônimo ainda distribuiu alguns folhetos nas redondezas, que explicavam matematicamente que se encerrava naquela data certo ciclo do dilúvio bíblico e que agora só seriam poupados os dignos de embarcar na arca moderna da fé sem limites. Poucos serão os eleitos, repetia ele em seus olhos fixos – e sua veemência era tanta que alguns vizinhos começaram a balançar. E se o mundo acabasse mesmo?

Daí a pouco, principiaram a chegar os outros que, também baseados em suas crenças e em certezas matemáticas, acreditavam que estava chegando a data. Não eram poucos, e tão convictos pareciam em suas batas brancas de tranquilidade, que mais pessoas da rua começaram a achar que aquilo era mesmo possível.

Quando, por trás dos muros, começaram a se escutar os cânticos e ritos de preparação, estes eram tão harmoniosos e afinados, tão cheios de iluminada certeza, que os moradores da rua passaram a pensar que o fim do mundo não apenas era possível, como também podia ser belo.

E quando, já no amanhecer de sábado, a estes cânticos se somaram instrumentos e luzes coloridas numa intensidade que aumentava a cada segundo, os vizinhos tiveram a certeza de que era mesmo chegado o dia.

Alguns tentaram invadir a casa de Jerônimo e juntar-se aos forasteiros para esperar em paz o fim do mundo, mas foi-lhes negada a entrada: àquela hora já não havia como estar entre os eleitos.

Então – que fazer? - esperaram todos em suas casas, recolhidos em medos e incertezas. O dia levou um ano para passar.

Quando o primeiro minuto de domingo chegou e as pessoas perceberam que o mundo continuava ali, tão sempre como sempre, não souberam bem o que fazer. Perdidos em suas solidões novas. Uns pensaram no que haviam dito a mais na semana anterior, outros nas bobagens que haviam feito. Uns pensaram que teriam que pedir perdão, outros se perguntaram se conseguiriam perdoar. Vida que segue e mundo também.

E na casa de Jerônimo, ainda na madrugada, um enorme silêncio decepcionado.


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