DESENCONTRO

É o olhar dela que me dá a certeza triste de que talvez sejamos ambos as pessoas certas nas vidas um do outro, mas aparecidas em tempos errados. Tempo de saber que o que cada um queria era diferente – e, no entanto, há a dor extra e incerta de não saber na verdade o que queríamos. Só sabíamos que não era a mesma coisa e mais nada. E há dor maior que a de não saber? É que nos encontramos em compassos distintos, ela me disse na conversa última e torta que tivemos, em que recolhemos ambos nossas armas e livros e escovas de dentes, e não conseguimos – porque não tentamos o suficiente – acertar os passos no meio desta trôpega e intensa caminhada comum. Faltou paciência, faltou habilidade, faltou o tempo – ou nós que não nos demos este tempo. Talvez eu quisesse mais do que ela, talvez ela tenha me cobrado além da conta, talvez nós dois não tenhamos recolhido a palavra no momento exato, talvez talvez talvez – mas de que adianta agora buscar as responsabilidades mútuas neste cansaço que nos derrotou num silêncio que não percebemos, os olhos mais presos ao desencontro do que a qualquer outra coisa? E aí houve a hora em que alguém disse que não dava mais (não lembro se eu ou ela) e o outro não teve o descortino de responder que não, que dava sim (não lembro se eu ou ela), que era só enfim decidirem – mas se ninguém sabia a decisão a tomar? Ninguém soube dizer não. Fazer o quê? – seria melhor do que não fazer? Não soubemos – e então não fizemos nada, deixamos ao tempo que esvaísse os nossos restos de força, como se fosse a única chance de nada. A separação teve um jeito invisível de derrota em luta não lutada, cada um para o seu lado, como se manter o respeito fosse uma grande vitória. E agora nos encontramos com pressa, por acaso e sem magia, e nossos olhos não pedem os perdões que deveriam pedir. Apenas fazem perguntas mudas, na desesperança esquecida de qualquer resposta. Nos encontramos na rua e nos cumprimentamos com sorrisos medidos, civilizados, menores do que gostaríamos que fossem. E conversamos um pouco, passando ao largo dos assuntos que um dia teriam que ter aparecido, falamos sobre amigos comuns para que não precisemos falar de nós. Mas quando nos despedimos, beijos derrotados nas faces, seguimos ambos sem olhar para trás, para que nossos olhares solitários não nos traiam às costas um do outro e confessem sem querer o quanto ainda nos amamos.

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