A NÃO NOTÍCIA

Todos os dias, um pouco antes das seis e quinze da tarde, ela liga o rádio para escutar o noticiário. Há quinze anos, sem nunca faltar; no carro ou em casa, sintoniza o aparelho na voz da emissora que informa o apanhado geral do dia e, assim, lhe permite projetar o dia de amanhã. O locutor é sempre o mesmo; conhece sua voz como se fosse alguém de casa. Quando o escuta dizendo “e agora, vamos às principais notícias de hoje”, ela para tudo e escuta as novidades.

Mas ontem.

O locutor recém havia anunciado “as principais notícias de hoje”, quando pelo rádio se escutou certo burburinho tenso e contido, vozes abafadas, e então um estrondo seguido do grito terrível de alguém sofrendo. Depois, foi um silêncio incandescente e denso, no qual se escutavam apenas alguns ruídos indefinidos e os chiados de uma estação quase saindo do ar. E então, após um minuto de eternidade, surgiu certa voz nova, dizendo a frase de sempre: “e agora, vamos às principais notícias de hoje”.

Nenhuma menção ao que recém havia ocorrido dentro da própria rádio. Um aumento de preço que preocupava os consumidores, os Estados Unidos implicando com alguém no Oriente Médio, a nova contratação do time da cidade, a tentativa de assalto à agência bancária,a greve dos lixeiros. Mas daquele estrondo pavoroso, do grito – nada. Como se não tivessem acontecido.

Ela telefonou à rádio para saber o que se passara, mas a telefonista respondeu, com voz ensaiada, que nada de anormal ocorrera. E o locutor do horário, perguntou ela? Tudo bem, respondeu a telefonista.

Hoje, no mesmo horário, ansiosa, ela ligou o rádio para saber se a voz de sempre estaria de volta – e não. Foi um locutor novo, impessoal e desconhecido, que anunciou as principais notícias do dia. E desfiou todas as informações mais importantes das últimas vinte e quatro horas: um aumento de preço que preocupava os consumidores, os Estados Unidos implicando com alguém no Oriente Médio, a nova contratação do time da cidade, a tentativa de assalto à agência bancária, a greve dos lixeiros.

Mas sobre o que havia acontecido com o locutor de sempre (a telefonista dissera que estava tudo bem com ele), nenhuma palavra.

Talvez a rádio ache que esta não seja uma notícia importante.


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