DIA DOS NAMORADOS

Há quatro anos eles se conhecem, há quatro anos são os melhores amigos um do outro - e também há quatro anos, ele é inteiramente apaixonado por ela.

Mas é que a amizade tomou conta, pensa ele. O que acontece é que hoje, ambos são parceiros de tudo, amigos de compartilhar alegrias sem motivo e dividir os problemas ainda antes deles começarem. Fossem casados há décadas, talvez não soubessem tanto um do outro. Eles se adivinham pelo olhar, pela respiração, pelos silêncios. Se ela precisar, sabe que pode telefonar às quatro e meia da manhã, porque ele a entenderá e, sem bocejos, ouvirá todos os necessários (àquela hora) desabafos. Ele saberá que uma ligação às quatro e meia da manhã só pode ser por um motivo importante, mesmo que seja só uma bobagem, e irá escutá-la com a paciência e a atenção que os problemas de uma amiga de verdade merecem. Depois, se necessário, ainda no meio da madrugada, ele irá à casa dela, para terminarem a conversa, para fazer-lhe um chá, escutarem música sem falar nada ou apenas para oferecer-lhe o ombro. Nada mais: apenas dizer que está ali. Sempre que preciso, ele fará isso – e ela também.

Quando ela teve namorado, era assim; quando ele teve namorada, também.

O problema é que esta amizade inteira já não consegue sufocar o amor que ele sente. Porque, de algum modo, ela dói. É apenas um sorriso de cumplicidade àquela mulher que na verdade ele gostaria de estar beijando, e isto cada vez mais lhe basta menos.

Hoje, no Dia dos Namorados, vai dizer isso à ela. Se esta confissão (o peso da palavra!) for o fim da amizade, que seja então assim. Se ela, a amiga, não suportar o amor que ele sente por ela, então já não poderão ser amigos. Ambos terão que suportar esta ausência, pensa ele – porque não consegue mais.

Ele atravessa a cidade com um buquê de rosas brancas e vermelhas, amizade e paixão, ensaiando mais uma vez o texto tão difícil que há tempos (talvez há anos) vem construindo. Decidiu: ela abrirá a porta, ele lhe entregará as flores e dirá tudo de uma vez só, para não tropeçar, não engasgar, não parar pela metade, não. O texto ensaiado, todo o texto ensaiado.

E quando ela abre a porta e o vê com o ramalhete de flores na mão, ele esquece todo o discurso que havia preparado.

Mas o sorriso que ela dá naquele instante lhe diz que isto já não importa.


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