A HORA EM QUE OS CAFÉS FECHAM

E então o homem senta-se, pesadamente, sobre uma das cadeiras que circundam as mesas que o café, tão elegante, dispôs na calçada para seus clientes, e deposita em outro assento a mochila e as sacolas plásticas que carrega e parecem tão pesadas. Veste-se pobremente, as roupas rotas dos bazares baratos, e as horas de caminhada com pouco destino servem para acentuar o cheiro de suor que exala. Mas o homem não percebe nada disso. Apenas respira fundo, goza em silêncio aquele momento de descanso, e naquela hora parece que o sol tem outro brilho, abraço caloroso que antes, na angústia seca da caminhada, não conseguia sentir.

Mas o garçom vem interromper este breve de paz.

“O que é que vai querer, meu amigo?” (homem cascurrento, pensa o garçom)

Ele diz que nada. Talvez também queira dizer que só está descansando um pouco das cruezas desta caminhada de vida sem destino, mas o garçom não quer saber de sua história. A mesa é para os clientes; para ficar, é preciso consumir.

O homem pega as moedinhas que carrega no bolso e pergunta quanto custa um café preto. O garçom informa o preço e o andarilho sorri – tem o suficiente. E pede o café.

O atendente se afasta, parecendo contrafeito, e o homem segue no alívio do descanso. Percebe que o garçom conversa com alguém no balcão e volta com certo constrangimento.

“O amigo vai me desculpar, mas a máquina do café quebrou.” (o cheiro daquele homem, pensa).

“Então uma água. Pequena.” – o andarilho sabe que o dinheiro que compra um café compra uma garrafa de água.

O garçom segue novamente o seu caminho e fala com a mesma pessoa com quem antes conversara, e que tem ares de quem manda. O outro gesticula sem sorrisos, mãos que parecem enxotar o mundo, e então o atendente volta.

“Terminou a água mineral, meu amigo.” – parece titubear, depois segue – “Na verdade, não é isso. É que o café está fechando e não vou poder lhe servir. O amigo vai ter que ir embora.” – e o garçom olha para longe, como se não olhasse.

Estranho, pensa o andarilho, todos os cafés parecem fechar à hora em que chega. Não consegue descansar nunca. Mas não faz mal, pensa ele, enquanto já se levanta para seguir a caminhada: aqui o garçom o chamara de amigo.


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