A FESTA DE NÃO MORRER

Na altura dos seus cento e dois anos, ossinhos miúdos e finos de passarinho novo e o peso de quem anda sem encostar no chão, a Avó olhou para trás em seu mundo e decidiu que já vivera o bastante. E então olhou para si mesma, bracinhos com jeito de asas em formação, e achou que era hora de se deixar morrer.

Os filhos não conseguiram entender a decisão, talvez porque já estivessem velhos; os netos choraram e nem pensaram em aceitar; os bisnetos acharam que era outra maluquice daquela velhinha que sempre os recebia na companhia do inusitado. Mas a Avó estava resoluta; talvez estivesse cansada do tempo na Terra.
“E quero me despedir com uma festa. Grande.” – disse ela.

A filha mais velha sugeriu que fizesse então uma festança de aniversário, mas a Avó bateu pé: esta seria uma festa diferente, apenas de despedida. Em vez de visitar todos, um a um, todos iriam visitá-la. E então não houve outra alternativa à família senão concordar.

Eram quase trezentas pessoas na festa, por causa do esmero da família e porque não havia quem não gostasse da Avó. Apareceram primas que ela não via há mais de cinqüenta anos, e filhos e netos destas primas que chegavam desconhecidos e em minutos se transformavam em filhos e netos da própria Avó. Amigos que não se enxergavam há décadas trocavam abraços e conversavam como se ainda ontem tivessem interrompido a conversa, enquanto a Avó presidia tudo com uma vida que há tempo não tinha, andando pela casa com passos redivivos, sorriso preso nos olhos de brilho novo. Os filhos tinham se esmerado nos quitutes, sabores com gosto de saudades que recém começam, e cada bocado era também uma emoção, enquanto a Avó – como fazia há anos – tomava escondida os seus goles de vinho. As risadas felizes se misturaram às canções que os mais antigos começaram a cantar e, no meio de tanta festa, nem houve quem percebesse os suspiros de arrependimento da Avó. E quando o conjunto começou a tocar e ela dançou uma valsa como se ainda tivesse quinze anos, estavam todos tão emocionados que ninguém notou suas lágrimas.

A festa só terminou na manhã seguinte, numa alegria tão grande que, na saída, alguns convidados nem se lembravam de dar à Avó uma última despedida.
Mas não era mesmo preciso; a noite fora tão boa que a Avó decidira não morrer mais. E já começava a pensar em sua festa de aniversário.


Outros Contos


OS MILAGRES SIMPLES

O PERSONAGEM QUE ME ESCREVE

A NOVA VIZINHA

O VENDEDOR DE PEDRAS

OSWALDO, QUE ESPERA O FIM DO MUNDO

SÃO LOURENÇO

ELE NÃO SABE

O HOMEM NO BAR

BELA, RECATADA E DO LAR

SURPRESA NA CHAMINÉ

O COLEÓPTERO TERROSO POUSOU NA RUBIÁCEA

OS PASSEIOS COM MINHA IRMÃ

A PRIMA JULIANA

MULTICORES

A CULPA É DELA

MANDOLATE

AS FLORES DE MARÍLIA

SEBASTIÃO

SINA

TELEFONEMA PREMIADO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais