FRIO ALÉM

São quatro filhos, três meninos e uma menina, e ela. Cinco pessoas, então, e apenas dois cobertores. Dejanira não sabe a conta de dividir, então coloca todas as crianças embaixo das mantas puídas, a fim de que elas se aquentem também umas às outras, e fica de fora do catre, cobertos apenas os pés, para que o desconforto e o frio não sejam tanto. Não adianta falar com os pais das crianças, porque eles podem ainda menos – e o fato é que o pai do menor já se perdeu pelo mundo. Então, o frio que se combata com o que há, os cobertores poucos e uns goles necessários. As crianças dormem um sono tormentoso, nesta madrugada gélida, torcem-se em um desmazelo triste, camisetinhas rotas de caridade pouco aparando o frio que atravessa as frinchas das paredes de madeira mal cortada e que os cobertores não conseguem defender. O vento desta madrugada é úmido, Dejanira tenta cobrir melhor os ombros da menina e este movimento descobre os pés do menino mais velho, que geme sem saber. É frio, é frio, e a mãe não sabe o que fazer. Dera aos filhos uns goles de cachaça, para que se esquentassem todos, mas o do meio vomitara tudo, e agora ainda há este cheiro podre a atravessar a noite. As crianças dormem e se mexem e é um frio e Dejanira pensa em beber mais um pouco, talvez consiga enfrentar melhor este gelo em forma de madrugada. Pega a garrafa, que ainda está pela metade, e sorve-a numa talagada só, gole após gole o calor voltando ao seu corpo gasto como se estivesse iniciando uma manhã de verão. Ela então olha novamente a cama em que as crianças dormem, e de repente tudo lhe parece mais tranqüilo, mais fácil. Ri alto, uma gargalhada que quase acorda o mais velho, e então a noite lhe parece mais confortável, as crianças parecem dormir melhor, e o calor chegou e o frio deixou num instante a peça de latão e madeira em que vivem, não há mais cheiro ruim, não há mais problemas e as paredes difusas parecem tremer um temor novo. Tudo ficou mais quente e feliz depois daquela garrafa, os filhos parecem sorridentes em seus sonhos cheios de inocência, e esta certeza nova de alguma maneira lhe aquece o coração de mãe. E os goles todos lhe deram uma idéia nova: vai fazer uma fogueirinha com os restos de pano e papelão que recolhera à tarde. Bom, pensa ela pela metade, a filharada vai gostar. Então levanta-se cambaleando, passos perdidos, e atira um fósforo aceso ao monte de entulhos que também parece dormir num canto do barraco. Ela dá um sorriso esgazeado quando vê a chama se acender, o calor da noite está garantido. E então se acomoda junto às crianças e fecha os olhos.

Outros Contos


TIA ESTER

OS CINCO HOMENS VELHOS

O SENTIDO DA VIDA

A VIDA É SIMPLES

TEMPO DE COMPREENDER

O PAI QUE ESPERA O FILHO ACORDAR

DEZOITO ANDARES

A MENTE COLORIDA

JOGANDO BOLA NO CÉU

TELEFONEMA PREMIADO

O MEU FUTURO

WALDISNEY II

O COLEÓPTERO TERROSO POUSOU NA RUBIÁCEA

A PROFESSORA

O TERROR INSTALADO NOS OLHOS

PARA QUE SERVEM OS LIVROS?

AS PRIMAVERAS

A MEMÓRIA AO LADO

ASFIXIA

PENSAR PENSAR PENSAR

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais