TRINTA ANOS E ESTA FOTO

O casal faxinava em coisas velhas, mexendo em gavetas e armários, decidido a jogar fora tudo o quanto estivesse ocupando espaço sem necessidade, quando o álbum de fotografias apareceu. Era um caderno desordenado, nele havia fotos de todos os tipos, colorido desbotado de trinta anos - mas Natélia prestou atenção apenas a uma fotografia em que Nicolau, pouco mais que adolescente, abraçava na praia uma morena cheia de sorrisos. Nicolau, na foto, tinha um olhar feliz – e, num ciúme despercebido, Natélia pensou que este olhar era raro no marido.

“Quem é esta morena?” – perguntou ela.

Nicolau olhou a foto com cuidado e custou a reconhecer-se, metade do peso e o dobro de cabelos; menos ainda, soube quem era aquela mulher aberta num sorriso juvenil.

“Não sei.” – respondeu ele, sincero.

“Ah, vai!” – exclamou Natélia. – “Pode dizer, não precisa ter medo! Eu não vou ficar braba!” – ela sorria em seu comentário, mas Nicolau percebeu nesta brincadeira uma espécie de alarme. E o problema era que, por mais que se esforçasse, não reconhecia esta desconhecida com quem provavelmente nunca mais havia cruzado.

“Não sei quem é. Verdade!”

“Ah, pára! Como é que não vai reconhecer? Olha a intimidade de vocês dois, o abraço...” – e ela dava tapinhas nervosos na foto, o sorriso pronto para quebrar.

“Juro que eu não me lembro!” – voltou Nicolau.

E então o sorriso desapareceu dos lábios de Natélia.

“Nicolau, não mente! Como é o nome desta piranha!”

“Não sei! Não sei! Já disse que não sei quem é esta mulher!”

“Alguma coisa deve haver para não querer me dizer! Alguma coisa muito séria! Mas eu vou descobrir!...” – gritou a mulher, ao tempo em que saía da sala, deixando as coisas desarrumadas ao redor do marido e batendo a porta com violência.

**********

Há três dias não se falam. Natélia, enraivecida com os segredos do passado do marido, guarda-se em fúria, enquanto ele, sem saber bem o que pensar, já começa a perguntar-se onde andará aquela mulher desconhecida.


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