DESCONFIANÇA

Estou sentado no banco do parque semi-vazio, no final da tarde, e observo o vendedor de algodão doce que vende suas guloseimas de açúcar colorido a uns vinte, trinta passos daqui. Ele não me percebe. O que pensará este homem que tanta anunciar seus doces para quase ninguém na hora em que a primeira noite começa a se avizinhar? No que acreditará? E por que razão não me olha?

Então ele levanta o rosto do carrinho e seus olhos, num repente, cruzam com os meus. Ele me vê, eu sei, mas logo volta sua atenção ao carrinho, aos doces, aos clientes inexistentes. E por que me olhou agora, este estranho? O que o levou a me olhar?

Daí a pouco ele levanta os olhos novamente, sorri com brevidade tímida e então me cumprimenta. Um aceno curto com a cabeça, como se não soubesse direito a forma de fazê-lo. Mas e por que me cumprimenta, esse homem?

Ele recolhe alguns pedaços de papel ao redor do carrinho; faz isso como se o mundo ao redor não existisse. Mas, depois, papéis colocados no lixo, ele olha o longe como se aí tentasse descobrir este mundo que ainda há pouco não existia. Não se mexe, o vendedor. E por que de repente não me olha mais, o que aconteceu?, por que disfarça?, por que finge que está sozinho quando sabe que também estou aqui?
Quando sai de sua imobilidade, novamente me dirige a rapidez de um olhar. Mas por quê? O que este estranho pode querer comigo?

E depois volta a olhar o longe, certamente disfarçando (por quê?), até que parece decidir-se a ir embora. Não há mais ninguém no parque, as crianças já foram todas para suas casas, e a escuridão começa a se instalar entre as árvores. Ele coloca o carrinho em movimento, vem em minha direção pela trilha de pedras soltas e fico a me perguntar para onde irá este homem, em quanto tempo chegará em casa – se tem casa. Ele passa à minha frente, empurrando seu carrinho, e sem diminuir o passo, volta o rosto para mim e me deseja boa noite.

Boa noite!

Ele deseja boa noite a mim, que não o conheço, que nunca o vi mais gordo em toda a minha vida! Por que alguém desejaria boa noite a um estranho, penso eu, intranqüilo, enquanto ele simplesmente se afasta como se nem houvesse dito nada.

Boa noite ele vai ver, penso eu. Amanhã volto aqui para saber o que ele quis dizer com isso.


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