O CHAPÉU MÁGICO

Stenio se aproxima de mim e, sorriso indefinido, quer me mostrar sua nova aquisição, comprada – segundo ele – numa loja misteriosa e sem nome do centro velho da cidade.

“O meu chapéu mágico!” – mostra ele, exultante, o barrete acinzentado e sem graça que lhe venderam, volume amorfo que parece derreter, disforme, em suas mãos felizes. O chapéu terá os seus tantos anos mal cuidados; penso que o brechó ou brique em que Stenio o comprara havia se livrado de um pequeno pulgueiro.

“Ah, é? E que mágica este chapéu faz?”

“Faz a pessoa desaparecer. Quem coloca o chapéu – puf! -, some!” – e ele faz um gesto com as mãos, abrindo e fechando os dedos, como se isso explicasse alguma coisa.

Stenio, eu penso, o pobre Stenio. A mulher o deixara há vinte anos, os filhos crescidos sem contato, e não há amigos que agüentem suas estranhezas, as esquisitices cada vez mais freqüentes. Passa seus dias numa solidão pesada e triste, percorrendo sem rumo as ruas e conversando com quem aceite conversar, o merceeiro, a moça que vende flores, alguém que esteja esperando o ônibus. Eu sou um dos poucos que lhe dá alguma atenção, um pouco por dever do ofício, quando ele chega em meu boteco, sempre às onze e meia da manhã, pra tomar um aperitivo. Porque é tanta, tanta a solidão. Solidão que, cada vez mais, vai lhe remoendo as idéias, percebo eu – enquanto ele admira o chapéu, tesouro comprado em loja de cacarecos. Triste.

“Quer ver?” – e ele me estende o volume, mas eu recuo; não quero aquele sebo antigo em meus cabelos.

Então ele coloca o chapéu em si mesmo, porque precisa me mostrar que num instante estará invisível. Gorro ridículo mal enterrado na cabeça, ele sorri tolamente, os olhos vazios, e é claro que nada acontece. Stenio, à minha frente, está tão invisível quanto nos outros dias: o fato é que ninguém nunca o enxerga, com ou sem chapéu.

“Que tal?” – ele me pergunta, ansioso – “Já desapareci?”

E eu não sei o que responder.


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