ESPERA

Ela observa o esmalte claro e descascado das unhas, apenas porque assim consegue disfarçar a angústia da espera. Olha o relógio outra vez, porque parece que já se passaram horas desde que chegou – mas são poucos minutos. Ainda nem sequer é mesmo a hora de sua consulta. Sente um suor sem nome e pensa que seria bom ter alguém na poltrona ao lado para pegar na mão.

A porta do consultório parece estar se mexendo, ela também se move em sua cadeira plana de espera - mas ainda é nada. Abre as páginas de uma revista antiga e pouco interessante, folheia as reportagens sem qualquer vontade ou atenção. Só o que importa é que o tempo passe. Que passe logo. Olha a secretária, que preenche algumas fichas como se estivesse sozinha, alheia à angústia da impaciente. Pigarreia, nervosa, e então a secretária a olha com certa leveza, simpatia medida – quantas, sempre, com a mesma ansiedade?

Então a porta se abre e ela ouve o médico chamar seu nome.

É a hora.

Entra no gabinete em passos ansiosos, senta-se na cadeira que ele lhe indica com gentileza profissional, e observa o caminhar confiante do homem em direção à escrivaninha. As pernas dela tremem, inveja a serenidade nos passos do médico. Sua angústia parece dobrar quando ele se acomoda na cadeira e, em câmara lenta, começa a abrir o envelope.

Agora são segundos – ela sabe disso – que novamente parecem horas. O médico analisa os exames à sua frente, sem pressa, enquanto ela sente outra vez este suor novo e indecifrado, um suor no qual parece mergulhar o seu corpo inteiro. Quer perguntar e não consegue – há algo em sua garganta a impedi-la.

“Meus parabéns.” – diz o homem, finalmente. – “O exame deu positivo. A senhora vai ser mãe.”

A senhora vai ser mãe, escuta ela – a senhorita.

E, mais sozinha no mundo do que nunca, não sabe agora se chora ou ri.


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