ANA BETH

Ela esvaziava os bolsos das calças do marido para colocá-las na máquina de lavar, quando encontrou o bilhetinho, amassado e escrito à mão: “Ana Beth”. Embaixo, um indecifrável número de telefone, anotado com os garranchos habituais de Eriberto.

“Quem é esta tal de Ana Beth?” – perguntou ela, à queima-roupa, já pronta para enfurecer-se.

O marido nem pensou para responder, mas enquanto dizia a frase já sabia que iria se incomodar.

"É uma ex-namorada minha.”

“Ex-namorada?” – perguntou a esposa, esfregando as mãos como só fazia quando era grande a chance de estourar. – “E de onde apareceu esta ex-namorada, pode-se saber?”

“Estava tomando um café no centro e encontrei com ela. Não via a mulher há mais de vinte anos...”

“Ai, que lindo!” – exclamou a esposa. – “Que bonitinho, um reencontro de ex-namorados que não se vêem há duas décadas!...” – e, olhar em chispas de fogo e gelo – “E o que foi que a dona Ana Beth - nomezinho ridículo este! – te disse? Te achou gordo, muito careca? Só pode!..” – e a ironia era fúria sem nome.

“Não, ela até que me achou bem. Disse que eu estava muito conservado. E ela também quase não mudou nada. Bonitona, a Ana Beth” – à essa hora, Eriberto já resolvera entrar no jogo sem jogo da esposa. Ela iria estourar de qualquer jeito. Então, que fosse por muito.

Ela não gritou (como ele esperava). Não o xingou (como ele esperava). Não chorou (como ele esperava). Apenas esfregou ainda mais violentamente uma mão na outra e mirou-o com uns olhos que eram mísseis de guerra.

“A gente vai conversar sobre isso mais tarde. Agora não estou em condições” – disse ela – “Amanhã.” – ela completou. E saiu do quarto, pisando pesado e carregando as calças do marido.

Eriberto fechou os olhos e soube que pagaria caro por tudo aquilo. Ex-namorada, pensou ele, por que fora inventar justamente esta história de uma ex-namorada que nunca existira? Por que não pensara logo em outra desculpa? Uma colega com quem precisara falar depois do trabalho, a gerente do banco, qualquer coisa. Mas inventar uma ex-namorada besta fora o que primeiro lhe ocorrera. Ele sabia: a fúria da mulher iria durar dias.

Mas não faz mal, pensou ele. Melhor assim do que se ela soubesse que ele estava consultando uma psicóloga.


Outros Contos


O TALENTO DE ELÍSIO

BETÂNIA EM SEUS SONHOS

A NOVA VIZINHA

JAIRO

RESPEITO

O CÃO AZUL

A HORA EM QUE OS CAFÉS FECHAM

O CÃO, OS FRANGOS, O TEMPO

MADRUGADA

COMPRAR CIGARROS

O AUMENTO (versão 1)

DESCULPAS

PAPAIS NOEIS

O TERROR INSTALADO NOS OLHOS

JOHNNY WILD CONTRA BRONCO JOE

LIXO

ESTE BARULHO

A PEDÓFILA

AS COISAS COMO ELAS SÃO

O OLHO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais