APOSTA

As mãos parecem misturar-se, tamanha a rapidez com que se cruzam, enquanto o homem move de um lado para o outro os três potinhos brancos, sob um dos quais se esconde a bolinha que, encontrada, dá direito ao prêmio. Ele grita, chama a pequena multidão ao jogo, desafia a todos numa aposta cristalina, enquanto segue mexendo os copinhos sobre o tablado de madeira em que ganha a vida. Até que um baixinho, de boné vermelho, decide arriscar-se e deposita sobre a mesinha uma cédula amarrotada; se acertar o palpite, ganhará três vezes o valor da aposta.

O dono da banca então para de mover os potes e mira o baixinho em certo desafio expectante. À minha esquerda, diz o apostador, e indica com o dedo o pote em que acredita morar a sua sorte.

E está lá, a bolinha.

A multidão vibra, o homem de boné vermelho solta um grito de vitória e espera que o outro lhe pague o valor recém conquistado. Quando termina de contar as cédulas, deposita sobre o tablado o dobro do que antes apostara.

E ganha novamente. Solta um urro, e o dono da banca mira-o com uma espécie de ódio resignado, enquanto novamente paga ao felizardo sua pequena fortuna.

“Joga de novo.” – diz ele, em porfia.

Mas o baixinho diz que não, que sabe a hora de parar

Então o dono da banca provoca o resto da multidão, perguntando se mais alguém quer tentar a sorte.

Everaldo pensa nos remédios para a mulher, o brinquedo para o filho, um par de sapatos novos. Ainda há pouco, não pensava: apenas observava o jogo, interrompendo por instantes a volta cansada do trabalho. Mas a sorte do outro, logo ao lado – um dinheiro fácil. Vou tentar, pensa.

E coloca no tablado metade do dinheiro que carregava. O homem para de embaralhar os copinhos e aguarda que Everaldo adivinhe.

“O do meio.”

Mas a bolinha está no copo da direita. Merda, pensa Everaldo, enquanto coloca o resto do dinheiro sobre a mesinha – agora não pode errar, pensa. Não pode.

O dono da banca mexe os copos velozes por um tempo, e então para. Everaldo sabe que a bolinha está na esquerda e aponta esta certeza. Mas, quando o homem levanta os copos, ela está no meio.

O chão some por instantes para Everaldo, ele treme. Mas não pode entregar sua derrota a este desconhecido.

“Amanhã eu volto e recupero.” – diz ele.

E sai, em passos derrotados, sem notar o olhar que trocam, entre si, o dono da banca e o homem de boné vermelho.


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