TEMPO DE FLORADA

Ninguém sabe direito quando ou como. O fato é que, certa tarde de outono, algum desavisado esqueceu um punhado pequeno de livros no banco da praça. Os livros foram ficando por ali, jeito e forma de esquecidos – quem passasse por ali não os enxergaria ou, desconfiado, pensaria ser melhor deixá-los mesmo, jogados sobre o banco. Sempre pode existir alguma armadilha nestes presentes tão simples. E além disso, livros na praça?

Tempos depois, já nos frios do inverno, certa tempestade bravia sacudiu a praça em ventos e águas. Uma chuva, um vendaval, um espetáculo – os braços das árvores dançando as músicas da natureza. Os livros, então, se deixaram desfolhar e, em lufadas de ventos fortes, se espalharam molhados pelo chão verde da praça. A ventania se encarregou de jogar por cima destas folhas de papel outras tantas folhas verdes, marrons e amarelas, caídas dos galhos e endereçadas à vida.

E lá ficaram as folhas dos livros, dispersas pela praça inteira, meio enterradas no solo molhado. Os zeladores do lugar, uma ou duas vezes por semana, ao regar as plantas e folhagens, regavam também os livros.
Não demorou muito, e sem que ninguém verdadeiramente percebesse, as folhas dos livros também começaram a brotar. Foram crescendo como as plantas, as folhagens, as flores, as árvores, a vida toda.

Quando chegou a primavera, tempo de florescer, a praça era inteira um desvario bom. Mesmo quem a olhasse sem atenção perceberia as novas e impossíveis cores, agregadas às tantas que sempre existiram, e mesmo os narizes mais insensíveis perceberiam os aromas raros que se desprendiam de todos os seus cantos – das plantas, das flores, das jovens árvores de livros.

E a verdade é que os olhares sem atenção e os narizes insensíveis por pouco tempo assim permaneceram. A força da praça foi invadindo sem perceber a cidade, enchendo-a de uma alegria silenciosa e perene. Daí a pouco, irradiada da praça e em meio à primavera, a cidade já era uma festa só.

A primavera em que os livros verdadeiramente se misturaram à praça foi a melhor primavera da cidade. Flores e livros, páginas e verde, sorriso e plantas, sabedoria e perfumes, árvores e vida.

A cidade toda já espera a próxima floração.


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