BOTAR AS CARTAS

“Bote as cartas para mim, professor.”

Não havia qualquer pedido na voz; a frase era toda uma ordem. A voz decidida de quem está habituada a mandar ou, no mínimo, tomar boas decisões sem maiores dúvidas. O professor então dispôs as cartas sobre a mesa, atendendo à ordem, pronto a enxergar ali o futuro de sua cliente.

Ele permaneceu num silêncio de estudos durante um tempo, examinando bem as cartas dispostas sobre a mesa e numa semi-luz que era o máximo que se permitia em seu consultório. A mulher esperou as respostas num silêncio tranquilo, olhando mais para os olhos do professor do que para as cartas nas quais vislumbrava o seu futuro. Interessante: parecia, na verdade, pouco preocupada com o que ele fosse dizer.

Quando o professor levantou os olhos para a cliente, começou então a narrar o que havia enxergado.

Ele via nas cartas um amanhã cheio de venturas e, num sorriso cheio de verdades, contou isso à mulher. Demorou diversos minutos para, numa narrativa plena de silêncios e pequenos suspenses, dizer a ela tudo o que, de alguma forma, a esperava. Mais coisas boas do que ruins. Sucesso na profissão, muitos amigos, vida longa, viagens, poucas tristezas.

E, mais do que tudo, aparecia nas cartas um grande amor, algo que durasse a vida inteira.

“Um grande amor?” – ela perguntou, duvidosa.

O homem atentou novamente às cartas, como que para certificar-se ainda um pouco mais, e respondeu que não havia dúvidas.

“E eu vou me casar?”

O professor atentou ao que diziam aquelas cartas e, após demorado exame, respondeu que sim.

“Então ponha as cartas de novo.” – ordenou a mulher.


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