O CASAL

E então paro em meu caminho, o caminho que percorro todos os dias nesta minha velhice solitária, porque nele há algo de novo: à frente de meus passos comuns e antigos, um casal tira sua fotografia. Outra pessoa é quem os fotografa, talvez um amigo, mesmo um desconhecido, mas isso pouco importa: o que vale, o que é preciso perceber agora, é a expressão de ambos, mulher e homem, poderosos e belos em suas juventudes. Não é a beleza dela ou dele que agora observo, distintas e diversas, embora se possa dizer que ambos, sim, seriam bonitos também se estivessem separados. Não: a beleza que agora percebo e que se avulta sem esforços, a beleza que surge no instante mesmo em que travo o meu passo, é aquela que emerge dos dois em conjunto. A beleza é a do casal em si, da força indelével dos seus vinte e poucos anos, da confiança invencível e equívoca de que a vida mais adiante não tem outra escolha que não a felicidade, e de que esta felicidade será certamente compartida pelos dois. É a força de quatro braços que agora se abraçam e parecem mil, e que têm a certeza de serem mais fortes do que estes mil que porventura apareçam. Enlaçados num manto de serena certeza, sorrindo para a câmara como se nem fosse importante, ela sorri a ele com a candura de quem ama e ele lhe devolve o sorriso com a dulçura que lhe permitem os traços duros. Nada mais parece existir para ambos, neste instante em que outra pessoa apenas lhes eterniza o abraço no meio do qual sorriem muito mais para si do que para o resto do mundo. Tudo isso sei neste mesmo momento em que paro o passo e os observo em sua felicidade dupla e única, no instante em que eles tomam com sua alegria o caminho ensaibrado da praça em que passeio minha solidão às cinco horas das tardes – sol que apenas beire minha pele cansada e triste.

Tudo isso sei – e me assusta.

Me assusta porque aquele garoto confiante e desabrido é igual a mim.

Eu vestia o mesmo olhar quando tinha vinte e poucos anos.


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