O HOMEM QUE VIRA A PÁGINA DA PARTITURA

A igreja está cheia, é noite de sábado e o concerto está prestes a iniciar. São duas peças barrocas, para coro e orquestra, e na primeira delas há um solo do organista especialmente convidado – um italiano de certo renome, a quem o maestro destina as maiores mesuras. Enquanto ainda se afinam os instrumentos e as vozes, sons que vencem em crescente harmonia o silêncio solene que habita os templos, ainda se percebe o nervosismo dos músicos, dos cantores, do solista. É normal, isso – e é bom que assim seja. Todos um pouco nervosos, tensos, na expectativa de que o concerto inteiro saia bem.

Todos em tensão – menos o homem que vira as páginas da partitura do organista.

Começa o espetáculo e este homem se dá conta da razão pela qual não está nervoso: ninguém lhe presta, nunca, a menor atenção. Há trezentas, trezentas e cinqüenta pessoas na igreja - e ninguém parece enxergá-lo. Ninguém. Todos os olhos, todos os ouvidos dirigem-se aos músicos, aos cantores. Estão também parados no organista, de quem ele agora é quase uma sombra provisória – mas é isto, ele é apenas a sombra do solista, e nada mais. Tanto é assim, que estão os músicos engalanados em seus fraques negros, e os integrantes do coro vestem todos umas elegantes togas azul-escuras. Mas ele, o homem que vira as páginas da partitura do organista, sequer usa qualquer trajes especial – basta-lhe que esteja com calças e camisas escuras, pretas ou cinzas, para não chamar a atenção, como sempre lhe pede o maestro. O público aplaude a todos os que se apresentam, mas ninguém o percebe.

Imerso em sua recém descoberta insignificância, distraído em seu nada ser, o homem esquece de virar a página da partitura.

E, naquele instante, o organista para de tocar – e a orquestra inteira, subitamente, não sabe o que fazer.


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