FERIADÃO

Abre os olhos lentamente, as pálpebras cheias de um peso desconhecido, e fecha-os no instante seguinte, invadido pela luz tanta que reina nesta sala nova. O olhar seguinte não entende nada e enfrenta a luz sem perceber, mirada oblíqua e desfocada. O menino vê-se deitado numa cama branca e sem conforto, as pernas presas por algo que não enxerga e não conhece, o braço imóvel envolto numa tala que se liga a uns ferros tristes e frios. Isso, ele percebe. Olha ao redor e o que há são lençóis claros que parecem envolver outras camas e luzes, outras pessoas deitadas no mesmo estupor. Uma sala grande, um silêncio sem cura. Tudo isso, num segundo: seus nove anos ainda nem atinam em chorar.

Não lembra muito de nada, um pouco porque a infância não é idade para isso e outro tanto porque não o deixam pensar os remédios e anestesias que não sabe que tomou. A memória é algo pastoso. O que lembra (acha que lembra) é daquelas duas outras luzes fortes e imperiosas que de repente haviam invadido a noite, o carro, a estrada, a viagem. As luzes, tenta recordar, tinham aparecido ao longe e foram crescendo velozes, junto com um barulho guinchado e feroz. Depois, ele consegue lembrar (ou acha), foi o outro barulho: o estrondo de metais e vidros e plásticos e borrachas, estilhaços que pareciam estrelas se quebrando, a noite se partindo em duas, estalos de tudo, atravessando o meio-sono que o embalava no bando de trás do automóvel. Lembra também do grito único e uníssono do pai e da mãe, pavor imediato no banco da frente – mas não consegue lembrar o que diziam suas vozes. Não consegue, os sons estão apagados: ali não há memória.

Ainda lembra um pouco antes, todos na festa cheia dos amigos, ele brincando, a mãe e o pai rindo – copos de cerveja na mão.

Lembra disso tudo, mas pela metade; a outra metade é um branco que talvez dure para sempre.

E o meu pai e a minha mãe, ele se sobressalta de repente: onde mesmo estão o meu pai e a minha mãe?


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