O MEU FUTURO

A pergunta candente brecou meu caminho:

“Queres que eu te leia o meu futuro, moço bonito?”

Achei que houvesse na indagação algum engano:

“O meu futuro, queres dizer.”

“Não. O meu próprio futuro. Queres que eu te leia o meu futuro, moço bonito?” – a cigana riu e bateu levemente com a mão esquerda no peito alegre e enfeitado de dourados, sacudindo as pulseiras do braço de azeviche, como a não deixar nenhuma dúvida: a mulher falava dela mesma. Era o seu futuro que queria adivinhar para mim.

Não consegui entender – e meu olhar certamente era burro.

A cigana então me fitou com uns olhos castanhos que acordariam cidades e achou que era melhor pôr fim à minha dúvida. Antes mesmo que começasse a falar, e ainda antes que eu entendesse, a quentura de seus olhos já havia me convencido.

“Qualquer cigana pode ler para ti os teus dias vindouros. Os teus. Isso é fácil, já nascemos sabendo. Mas eu te ofereço muito mais. Por uns poucos trocados, eu te ofereço a leitura do meu próprio futuro. Dos dias que tenho eu mesma pela frente, dos meus planos e amores, minhas dores e vitórias, minhas noites e meus dias. A madrugada quente do nascimento de meu filho, a tarde clara em que vou morrer. Aquilo que de importante irá me acontecer está na palma da minha própria mão, que te estendo como se fosse tua, e que te leio e revelo em troca dos poucos tostões que certamente tens no bolso.” – ela parou um instante, depois me fitou com intensidade ainda maior. – “E é preciso muita coragem a uma mulher para se desvendar inteira em frente a um desconhecido.”

O futuro daquela mulher à minha frente, pensei. Aqueles olhos castanhos descobertos, a força vindoura daquele sorriso estentóreo, o amanhã revelado daquela voz ardente – à minha disposição. Eu queria aquilo, decidi, mais do que tudo.

E estendi a mulher o dinheiro que tinha no bolso.


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