BRIGITTE BONJOUR

Brigitte Bonjour olha-se no espelho e é verdade (uma verdade tranquila) que não a incomodam as rugas e os pés de galinha que se percebem por baixo da maquiagem, nem os quilos a mais que acomoda, fartos e inescondidos, sob o cetim amarelo do vestido. A vida é isso, pensa: quem não quiser envelhecer, que morra jovem. Até porque, Brigitte sabe, nunca foi o corpo: a voz foi sempre o seu instrumento maior de sedução. Anos atrás, sim, o corpo era também atrativo, chamariz; percebia os murmúrios lascivos quando atravessava o palco ou cruzava as pernas sobre o banquinho em que, na boate, incendiava noites cantando “Ne me quittes pas” e “Meu mundo caiu”. Mas nem naqueles tempos de cílios longos e fartos cabelos achava que seu rosto e corpo fizessem a diferença: a diferença era a voz. Aquela rouquidão inexata, a dor e as lágrimas que sempre junto às canções, o jeito de dizer, a alma nas palavras – muitas paixões chegaram à Brigitte por conta de sua voz. Porque é assim, sabe, tem que ser: o artista deve arrebatar pelo talento. O pintor, pela maravilha das tintas; o escritor, pela ourivesaria do texto; quem canta, precisa conquistar pela voz. Pouco devem importar as medidas do corpo, se este corpo tem vinte ou sessenta anos, cinquenta ou oitenta quilos. Brigitte tem sessenta anos e oitenta quilos, os cabelos loiros de antanho não são mais do que palha seca que caem quando se banha, e no rosto e no corpo as rugas são atestados de dias bons e ruins, nada mais. Igual às outras vidas. As pernas às vezes doem para subir ao palco e já não as cruza mais com a leveza de antes – nem quer cruzá-las. Mas quando começa a cantar “Fascinação” com o mesmo calor de sempre, os apupos e o entusiasmo que escuta lhe dão a certeza de que ainda tem o dom de levantar paixões. Azar do corpo se ainda tenho a voz, pensa. Meu corpo é este e esta é a minha vida, diz. Desde sempre, e que bom que seja.

Só o que incomoda um pouco, ainda hoje, são estas pequenas manchas negras que, com displicência e paciência, precisa remover duas vezes por dia do rosto. Mas isso também é assim mesmo – que fazer? – desde os quinze anos, tempo em que começou a fazer a barba.


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