RESPEITO

O senhor veja que eu sou uma mulher de bem, doutor. Uma mulher de paz. Não mexo com ninguém, não me meto na vida dos outros. Vou de casa para o trabalho e do trabalho para casa, nem sei o que falam os vizinhos. Cumprimento todos, não nego um comentário sobre o tempo, o calor, coisas assim, mas não mais. Não escuto fofoca da vizinhança. E detesto escândalo, me dou o respeito. É isso: me dou o respeito.

Por isso, quando Remoaldo chegou em casa dizendo que ia embora, assim sem mais, nem menos, eu não pensei em fazer nenhuma cena. Não perguntei nada, fiquei com os olhos meio baixos como é mesmo o meu jeito pensando que cada um é livre para fazer o que achar melhor. Por causa da vontade dele e por mais que me doesse, não ia eu sair fazendo escândalo. Como eu já lhe disse, me dou o respeito.

Nem quando ele falou que estava saindo por causa de outra mulher eu me alterei. O coração pareceu que virava vidro naquele instante, agonia e tristeza como eu nunca tinha sentido antes, mas agüentei firme, encarando o chão para que ele não percebesse o brilho lacrimoso dos meus olhos e resolvesse ficar comigo por pena. Pena eu não quero, doutor, porque se tem uma coisa que eu não abro mão é me dar o respeito.

E eu gelei, lhe juro que gelei, quando o Remoaldo disse que estava indo para a casa da Vânia. Foi como se uma agulhada me atravessasse o peito e ficasse escarvando a carne, tanta a dor. Um sofrimento que ia além destes anos todos que estamos juntos, deste amor que eu ainda tenho pelo meu marido. O Remoaldo e a Vânia, pensei, recolhendo o choro. Ela é uma das vizinhas que eu cumprimento todo o dia, bom dia, boa tarde e não mais que isso, porque sempre achei ela meio atirada e prá tudo eu me dou o respeito.

Quando ele repetiu que ia para a casa da Vânia, percebi que a intenção era me humilhar. Porque não precisava, o senhor sabe. Mesmo assim fiquei com os olhos no chão, muda, deixando a ele que se fosse, e só quando levei a mão ao rosto foi que percebi que chorava. Mas não falei nada, não ia lhe dar o gosto da minha derrota, porque me dou o respeito.

Ele já estava aprontando as coisas, doutor, botando na mala as roupas que eu mesmo tinha dobrado e de tudo quanto é maneira tentava me provocar. Procurava as roupas devagarinho e me olhava de vez em quando. Parecia que tinha culpa de sair sem alguma gritaria que lhe desse motivo, mas eu nada. Agüentando firme, porque não ia fazer cena numa hora difícil destas. Eu chorando baixinho e ele me provocando. Até o momento em que Remoaldo pareceu roncar alto, um som estranho e meio desconhecido. Quando levantei os olhos, assustada, percebi que ele gargalhava.

Foi só aí, doutor, que eu peguei a faca.


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