ONDE ANDARÁ ESTE FUTURO?

Vinte e três anos atrás, ela no esplendor dos vinte recém completados, véu e grinalda, flor de laranjeira nos cabelos negros, ele o cravo vermelho e retumbante na lapela alugada, os dois em sorrisos invencíveis e que se mostram ao futuro na fotografia, o futuro uma certeza de poucos medos, ele supervisor na fábrica ela prendada, costurando para fora, cheia de encomendas, o noivo prometeu à noiva que tão logo sobrasse o dinheiro ela voltaria a estudar, logo que desse, os sorrisos olhando para a frente, logo que desse, no ano que vem, e no outro, e no outro, mas os tempos de voltar a estudar acabaram não chegando, quem chegou foram os filhos, o primeiro, uns anos, o segundo, mais uns anos, e a caçula, treze anos agora a caçula, todo o dengo do pai, que foi promovido e precisava viajar todos os meses e sempre em festas e atividades e compromissos e jantares, diz ele que precisa ir, por enquanto não se falava em volta aos estudos porque ela precisava cuidar era da escola dos filhos, porque ele tem compromissos e agendas não tinha tempo, nestes anos todos ela se encurvando frente à máquina de costura, os quilos de cada gravidez se avolumando pelo vestido, o peso das costas se transformando naquela agulhada que não a deixa dormir nestas noites em que se revira esperando o marido que chega cada vez mais tarde, depois de alguns anos ele parara de prometer que ela iria estudar, não era mesmo necessário, dizia ele, o que ganhava era mais do que suficiente, e não precisa minha mulher sair de noite para estudar, tanto marginal pelas ruas, ele o provedor e ela em casa costurando, faxinando, fazendo o café da manhã e o almoço e o jantar (o jantar frio a espera pelo marido), lavando as louças e as roupas de todos os cinco, preparando as merendas, reunião na escola, aparando a grama do pátio, a vizinha que pede um reparo na blusa, os óculos, os óculos tão necessários agora para colocar a linha na agulha, para encontrar a linha, para tudo, vinte e três anos passados e não tem tempo para pensar que se tivesse estudado, porque os filhos e a casa e as listas do mercado e as clientes e o marido sub-gerente (que horas ele chega, será que já jantou?), não tem tempo, às vezes em que para um pouco é porque a dor nas costas não deixa, deita-se a sofrer em silêncio, os filhos numa juventude que pouco enxerga a mãe, e o marido está numa reunião (ela olha as fotografias e lembra a flor de laranjeira, lembra o cravo deselegante na lapela, tudo tão lindo), o marido que chegará hoje à noite, madrugada acesa, e anunciará que amanhã de manhã está indo embora, porque já não consegue viver com uma mulher que parou no tempo.

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