PROMESSAS DE ANO NOVO

Eis-me aqui, vestido de ano novo e celebrando a chegada de 2012 com várias taças de espumante, prato de lentilhas a garantir dinheiro no bolso, frutas e doces, vestindo uma peça branca, carne de peixe e de porco porque este nada e o outro afocinha sempre para a frente, nunca para trás. Estas superstições todas que nos acompanham há anos, sem que se saiba muito a razão – mas por que não cumpri-las? Por que arriscar-se a achar que está o ano inteiro sem dinheiro só porque não comeu umas colheradas de lentilha no réveillon?

E outro dia debatíamos, lá em casa, a validade das promessas de ano novo. Este ano vou parar de fumar, emagrecer cinco quilos, me matricular num curso de inglês, caminhar todos os dias, comprar uma bicicleta, dar mais atenção aos meus filhos, visitar mais os meus pais, pedir em namoro a colega de turma, olhar as coisas e a vida com mais paciência – estas promessas todas, repetidas em cada canto e em cada ano. O quanto valem estas promessas, perguntávamos, terão mesmo o valor simbólico da decisão – maço de cigarros atirado fora para um desejado nunca mais, os tênis de caminhada tinindo de novos na caixa – ou teriam o mesmo peso se fossem tomadas num outro dia qualquer? E a discussão foi longa e nada séria, boa e escorrida entre sorridentes garrafas de espumante.

Pois eu acho que valem, sim, estas promessas. Valem para quem as faz; não podem incomodar quem nelas não acredita. E valem mais ainda para quem consegue a vitória de cumpri-las. Se a promessa de conseguir namorar a colega de turma torna mais forte a vontade do moleque tímido neste ano que se inicia, ótimo; e se ele chegar ao final de 2012 namorando a mulher desejada – seja feliz, garoto!

Porque as promessas todas, na verdade, se resumem a tentar ser feliz. Cumprir as próprias promessas e sentir-se mais feliz. E nestes primeiros dias, ficamos todos autorizados à boa pieguice que, de vez em quando – em alguns mais, em outros menos – desborda dos corações humanos. Então, que minha promessa seja simplesmente a de tentar ser feliz, sem atrapalhar os desejos de felicidade dos outros. Simples assim.

Se não der este ano, tudo bem – não será por falta de tentativa.

E no ano que vem, certamente eu renovo a promessa.


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