O BILHETE

Tão melhor quando sabia sem saber.

Ele chegava às duas da madrugada e era a reunião de trabalho que havia se estendido demais. Telefonava às seis da tarde para dizer que não ia dormir em casa, viagem de última hora por causa dos problemas de alguma filial. A camisa cheirando a outro perfume, mas tinha sido acidente, colega que lhe derramara um pouco do que havia no vidro, sem querer. O hálito de cerveja era nada, havia tomado um golinho só no aniversário do supervisor do escritório. Sempre isso, todos estes anos – e ela tonta, em casa e dona de casa, fingindo para si mesma que acreditava.

Tão fácil viver com os olhos fechados. Com cinqüenta e tantos anos, como saber abri-los?

Mas agora, o bilhete. Este bilhete que sangra em suas mãos, este bilhete em que há o nome de seu marido e que foi escrito com letra caprichosa de mulher, e que não é apenas um número de telefone – porque então, diria ele, seria apenas um contato profissional, número anotado por possibilidade de negócios, outra mentira. Mas não. O bilhete não lhe dá qualquer chance, está endereçado a Ramiro e diz que a dona daquela letra adorou a noite e que mal pode aguardar para repeti-la. Logo abaixo, o número de telefone e um apelido carinhoso. Paty – ela lê. Esta Paty que havia colocado o bilhete no bolso da camisa de Ramiro, esta camisa que agora há pouco, sempre Amélia, juntara do chão para colocar no cesto da roupa suja, querendo lavá-la ainda hoje. Este bilhete que agora lhe dá a certeza que sempre teve, que não lhe permite mais a desculpa da ignorância, este bilhete que agora está em suas mãos e lhe exige a atitude que não sabe como tomar.

Porque o que teria que fazer, agora mesmo, seria atirar pela janela as roupas de Ramiro, esperar que ele chegasse apenas para dizer que nunca mais queria vê-lo e colocá-lo porta afora. Isso é o que deveria fazer – mas onde as forças nestes seus mais de cinqüenta anos de silêncios?

E este papelzinho lhe tira a mornidão escura e confortável de seus dias e a joga num mundo que não conhece. O precipício de uma certeza que não queria ter.

O que é que eu faço agora, pergunta ela em lágrimas novas – enquanto lê o bilhete ainda outra vez.


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