AS UVAS VERDES

Vê só.

Esta mulher que acordava à noite para ver se te encontravas bem, se estavas coberto e respiravas direito, que só dormia depois que estivesses guardado em teu sono. Que te acordava em beijos sem medo, inacreditavelmente perfumada, massageando os teus pés e dizendo que o café estava passado, pão com geléia de morango e a fatia medida de mamão sem sementes repousando prontos em cada prato. Esta mulher de corpo exato que dava abrigo nos dias frios e expulsava o calor dos dias quentes, em cujos abraços te sentias a salvo de qualquer inimigo poderoso. Cujas mãos tranqüilas sabiam guiar tuas mãos em passeios pelos lugares novos, o imaginado, o imaginário, o desconhecido. Esta mulher que saía a trabalhar na mesma hora em que saías, voltando ambos ao final da tarde e, se o teu cheiro guardava em si todos os humores e desumores do dia, o dela ainda rescendia à alfazema do banho da manhã. Era um sorriso aromado que te encontrava quando colocavas os pés em casa, reclamando do trabalho quase sem notar e, antes que desses conta, em tuas mãos havia o copo de uísque com uma dose de água mineral e três pedras de gelo. Depois, enquanto bebias mudo o teu drinque, ela se amoldava em teu ombro, a tepidez confortável de seu rosto, o piscar dos olhos retinindo leve em teu peito, também sem falar nada. E quando havia futebol pela televisão, quarta-feira imutável em tua rotina, ela vibrava com o mesmo time pelo qual torcias e te irritava perguntando o que mesmo era impedimento e em qual dos times jogava aquele rapaz de preto. Esta mulher que procurava especiarias no mercado e que te apresentava pratos novos a cada tempo, cores e cheiros e gostos de outros lugares, como se fossem ambos numa pequena viagem que durava a hora do jantar. Comiam e pedias a ela opiniões sobre os problemas do escritório; depois, quando ela te contava o dia, esquecias de escutar. Esta mulher que, na madrugada em que sonhavas de estômago cheio, acordava de quando em vez só para ver se estavas bem.

Esta mulher, vê só, esta mulher te deixou.

Enquanto choras, só o que consegues pensar é que ela não te merece.


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