AO MAR

A praia está cheia de felicidades em grupo. A família que chegou cedo, no início da manhã, e que até agora se diverte entre banhos de mar, milho verde, protetor solar e castelos de areia; os amigos que entram na água de vez em quando, mas que mais observam a beleza das meninas passeantes do que qualquer outra coisa; as meninas que caminham pela beira da praia, mas que mais observam os olhares dos meninos do que qualquer outra coisa; os casais de namorados que não olham para ninguém, além deles mesmos; as duplas de salva-vidas, que divisam a praia sempre em seu todo.

Por isso, ninguém percebe direito a mulher que chega sozinha, nem a tristeza que a cerca. A mulher não é feia, pelo contrário – quem a perceber, facilmente dirá que é bonita (e, no entanto, ninguém a percebe). Mas há algo que, sim, a enfeia: a recém chegada carrega consigo um ar de tanto abandono, melancolia insolúvel e sem volta, desespero sem nome, que lhe rouba as cores do rosto e lhe empresta uma auréola acinzentada de desamparo. Mas, ocupados todos em suas felicidades de férias, ninguém vê o cinza pesado que se apossa do rosto da mulher.

Ela chega-se bem à beira do mar e sente com os pés o frio da água, sem se importar. Depois, volta à areia seca e, com cuidado, deposita no chão os seus chinelos de dedo, o chapéu e a sacolinha de praia em que deve carregar seis apetrechos – ninguém sabe. A mulher olha para todos os lados, como a verificar se alguém também a olha, apenas para se certificar de que isto não acontece. Ninguém a percebe, ninguém a vê.

E então entra na água.

Entra como se as ondas não existissem. Não as salta para se divertir: salta apenas o necessário para que elas passem e para que consiga seguir seu avanço. Cada onda que a leva em direção ao raso é enfrentada com a força dos que sabem bem o que querem – e a mulher avança, numa coragem reta. Daqui a pouco, ela não é mais do que um ponto visto de longe no meio de tanta água, um ponto pequeno que – se alguém verdadeiramente olhasse, seria fácil de perceber - aparece e desaparece, aparece e desaparece neste mar tão grande.

Quando os salva-vidas perceberem que aquilo não é um banho, talvez seja tarde demais.


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