O HOMEM MAIS VELHO DO MUNDO

Eles o anunciam todas as noites como o homem mais velho do mundo, e impressionam a plateia contando que já comemorou centro e trinta e dois aniversários. Licurgo sabe que não é assim, que não é tanto, e o quanto de memória lhe resta só permite que se lembre dos cento e vinte e três anos que, com certeza, tem. Mas centro e trinta e dois ou cento e vinte e três anos, pouco importa o exagero: o fato é que ele é a maior atração do circo mambembe com que seus netos ganham a vida pelas cidadezinhas perdidas nos cantos do mundo.

Licurgo não precisa fazer nada. Apenas entra e posta-se ereto no picadeiro, apoiado em sua bengalinha de cana-da-índia, e o fato de caminhar e ficar de pé onde ainda há pouco os palhaços faziam malabarismos já é suficiente para arrancar apupos admirados da plateia. Ele exagera a dificuldade da caminhada sobre a serragem, artifício cênico de transformá-la em algo mais difícil do que verdadeiramente é, apenas para valorizar sua condição de homem mais velho do mundo e garantir uma admiração ainda maior. As pessoas o observam com a atenção duvidosa, não sabendo se acreditam naquele número impossível, tentando descobrir a verdade de todos aqueles anos nas tantas rugas de sua pele, nas manchas descoloridas de seu rosto, nos cabelos cor de nuvem, no seu peso de passarinho em voo – e sempre haverá quem duvide, quem pense que tudo aquilo é máscara, truque de velhice, ou o moleque que lhe dê um beliscão no braço apenas para saber se aquela sobra de pele é mesmo real.

E Licurgo está cansado disso tudo. Há mais de cem anos vive esta vida – palhaço, trapezista, homem-bala, domador, equilibrista, mágico, contorcionista, vendedor de algodão doce, bilheteiro, distribuidor de panfletos e, agora, homem mais velho do mundo. Cem anos não são cem dias, e o fato é que este centenário lhe pesa nas pernas, nos caminhos, na vida. Idade pesa, dizem os velhos.

Quer parar, quer uma cama quente e sossego, um caldo de carne e nada – nada – para fazer.Quer ser cuidado. Mas não pode: é a principal atração do circo. Até que consigam um atrativo melhor, o que não está sendo fácil nestes tempos, Licurgo segue trabalhando todos os dias, desfilando seus ossos miúdos e gastos em frente às plateias dos povoadinhos por onde o circo passa.

Quando conseguirem uma atração que o substitua, Licurgo finalmente irá descansar. Mas agora ainda não pode se dar a este luxo: as vidas dos seus netos dependem dele.


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