CRIANÇA TEM QUE SER FELIZ

Mas por que os meus filhos não podem estar comigo na Páscoa? - pergunta-se ele, ainda sem entender, enquanto dá a partida no carro para procurar qualquer restaurante onde almoçará sozinho. Que mundo injusto é este que não deixa dois garotos pequenos passarem com o pai um dia tão importante? Ninguém poderia tirar este direito de uma criança, pensa ele, agitado, enquanto dirige um pouco a esmo por esta cidade tão deserta.

Lembra, ainda que não goste. Lembra, porque não é mesmo para esquecer. As brigas com Marília o tempo inteiro, as discussões em que ela sempre arranjava um jeito de colocar as crianças contra ele, o choro dos dois pequenos, a mulher provocando e provocando e provocando até além do limite – e quando via, já estava em cima dela, tapas e socos. Umas poucas vezes, três ou quatro, e qual é o homem que não perde a paciência de vez em quando? – justifica-se ele, enquanto acelera o carro. Até que chegara em casa, certo dia, e Marília e os dois filhos não estavam mais. Só o bilhete da mulher (ele guarda o bilhete, ainda) dizendo que não aguentava mais e estava indo embora. Aquela fresca, pensa ele, e levando os meus dois moleques! Agora, está lá na casa dos pais, com uma ordem do juiz para que eu não chegue perto dela, imagina só! Como é que pode uma coisa dessas? Quem ela acha que é, qual o direito que ela acha que tem de tirar a felicidade de uma criança? – ele se enraivece ainda agora.

Não é por minha causa, que já me cuido sozinho. – pensa ele, quando para o carro no sinal vermelho, freando com alguma violência. Mas e os meus dois filhos, como é que ficam? Será que as crianças não têm mais o direito de serem felizes? Porque, afinal, são só crianças. Será que esta desalmada não percebe isso? - “Criança tem que ser criança!” – exclama ele ao sinal fechado.

“Tem uma moeda aí, tio?” – a voz do garoto é pequenina e surge de surpresa, aproveitando a janela aberta do carro. Ele olha para o lado e quem pede tem o mesmo tamanho da voz.

“Sai fora, moleque.” – e fecha o vidro do automóvel, olhando para a frente. Tanta coisa para pensar, não tem tempo de ficar dando dinheiro para desocupado.


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