É O JOGO

Quando o time entra em campo, todos os jogadores são aplaudidos à hora em que o locutor anuncia os seus nomes. Todos - menos ele, o centroavante. No momento em que o locutor grita o seu nome, o que se escuta no estádio é uma vaia ruidosa e uníssona, como se estivessem anunciando a entrada do time adversário.

Mas ele, o centroavante, sabia que seria assim. A vida inteira no clube, trazido ainda pelo pai para as categorias de base, crescendo e aprendendo a jogar no time para o qual também torcia, os gols se enfileirando, um atrás do outro, autógrafos e fotografias, daí a pouco a torcida já tinha faixas e gritos de guerra com o seu nome. O ídolo do time. E de repente, tempos atrás, brigara com um dirigente (ou um dirigente brigara com ele, o centroavante sabe pouco destas coisas) e saíra brigado do clube. E então podia ter ido para qualquer outro lugar, mas se rendera às cifras da proposta e fora jogar justamente no time rival. Fora o seu erro. Quando assinou o contrato, os muros de sua casa amanheceram pichados: “traidor!” Quando, um ano depois e após uma série de negociações, assinara contrato com o clube de onde nunca deveria ter saído, a pichação no muro nÍ o fora muito diferente: “traidor, sempre!” O clube e ele haviam se perdoado mutuamente; mas a torcida, esta não perdoara o antigo ídolo.

Por isso, em sua nova estréia, ele sabia que seria esta vaia. As pernas tremem um pouco, mas é normal.

´É só começar a fazer os gols que sei fazer”, ele pensa, “e tudo isso vira aplauso.”

Precisa acertar. Fazendo os gols (e ele sabe fazê-los), a torcida irá novamente gritar o seu nome, cantar as músicas que sempre o exaltaram, carinhos e abraços, nunca mais a palavra ´traidor´ pintada no muro. É só fazer gols - ele diz para si mesmo enquanto o jogo anda – e isso eu sei fazer.

É só fazer gols – repete ele, como um mantra.

E de repente, como se alguma força maior lhe atendesse aos apelos, a bola sobra para ele sem nenhum zagueiro à frente. É só fazer, fácil – e eu sei fazer isso, pensa ele, enquanto corre com a bola em direção a um goleiro que sabe que pouco conseguirá defender. Ele olha o canto direito da goleira, o mais desamparado e fácil, e já antevê o grito de gol da torcida, o delírio da arquibancada, seu nome novamente como herói, o perdão para sempre - e chuta.

A bola bate na trave.

E sai.


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