O GÊNIO NA VIDA DE VICENTE

Não me pergunte por que, mas o fato é que um gênio apareceu na vida de Vicente. Ele limpava desavisadamente alguns objetos que recolhera no porão –- mangueira, brinquedos velhos, molduras antigas, um serrote enferrujado, a caixinha cheia de parafusos –- quando espanou com força e capricho a poeira antiga daquela garrafa. E então, no meio de toda aquela fumaçada espessa e cinza (mais coisa para limpar, pensou Vicente), apareceu o gênio. Grande e azulado, a voz estentórea e poderosa, roupas que pareciam saídas de um filme de fantasia. Quando a fumaça se evanesceu, para alívio de Vicente, o gênio fez a ele uma mesura milenar e disse aquilo que se espera que os gênios digam.

“O senhor tem direito a três desejos, meu amo.”

Mas o outro fato desta história é que Vicente não acredita em gênios de garrafa. É um cético, ele – e, afinal, só estava limpando as tranqueiras do porão. Ou seja: aquele gênio, na verdade, não podia estar ali. Além disso, ele é daqueles que acham que as pessoas devem conquistar as coisas pelo esforço e pelo mérito e pelo trabalho e coisa e tal. Nunca através de desejos a um gênio recém aparecido.

“O que é isso? De onde é que tu vem? Eu não quero nada!”

“Mas o senhor tem direito!”

“Mas eu não quero!” – respondeu Vicente, e voltou a limpar a tralharama (todas aquelas cinzas da garrafa!), na esperança de que o chato fosse embora.

Mas o gênio não foi. Foi ficando.

****

Há quase um mês, a criatura segue os passos de Vicente numa timidez servil. Vicente vai ao trabalho e ele fica na porta do escritório, como se fosse uma espécie de guarda azul do século XII. Vicente vai ao bar, para tomar umas cervejas com os amigos, e lá está o gênio, na mesa ao lado, zelando e se consumindo em sua solicitude milenar. Vai às compras do mercado e, quando vê, o gênio está atrapalhando, com sua imensidão mansa, a fila do caixa. No futebol, também – ainda por cima, ao que parece, está torcendo para outro time.

E a cada tanto, numa voz adocicada e que se renova sempre em esperanças, ele lembra:

“Não se esqueça que o senhor tem direito a três desejos, meu amo.”

Um tormento, este gênio, um verdadeiro tormento.


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