ESTE DOMINGO

Acordou mais cedo neste dia, ainda que talvez hoje não fosse o melhor. Nem bem havia clareado o domingo, e já estava de olhos abertos, o sono fugido para algum lugar de desencontros. Virou-se na cama, tentando dormir ainda um pouco, mas foi como se este movimento o acordasse ainda mais. Levantou-se e soube que o dia demoraria demais a passar.

Escovou os dentes escutando um silêncio grande ao redor, apenas os barulhos simples da manhã se instalando – pássaros, o rumor da caixa d´água se enchendo, um galo ao longe, o motor de algum carro que levantara cedo ou ainda não dormira. Lavou o rosto e prestou atenção: ninguém mais acordado. Dia longo, pensou ele novamente.

Olhou pela janela do corredor e, lá fora, o domingo ainda não estava inteiramente claro. Não podia nem sair ao pátio. Resolveu caminhar um pouco pelas salas, pelos corredores – porque o café da manhã só seria servido mais tarde. Teria que esperar pelo café, e mais ainda pelo resto do dia.

Andou pelos corredores cujas paredes não lhe ofereciam qualquer segredo e sentou-se na sala de televisão, mais para fazer nada do que por qualquer outro motivo. A TV só podia ser ligada mais tarde, lá pelo meio da manhã. Pegou uma revista, quadrinhos que estavam misturados aos poucos livros da estante, e tentou ler. Mas a atenção voava perdida em direção ao resto do domingo; leu umas poucas páginas, sem entender nada, e atirou a revistinha na mesa de centro. Um desconforto – mas ele sabia que hoje seria assim.

Sempre é.

Ele tem quatorze anos e há doze vive neste orfanato. De antes, não lembra – e também não conhece outra casa. Sua casa é mesmo aqui – repete ele, como tantas outras vezes, olhando solitário para as paredes gastas. Aqui gostam dele e é aqui que tem os seus amigos. Aqui é a sua vida, desde que sabe.

Mas este domingo é sempre um pouquinho difícil.


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