ARGANAZES

Adélia escutou uma frase, num discurso bíblico, que dizia que os montes dão abrigo às cabras e os rochedos abrigam os arganazes – e impactou. Não pela frase como um todo, mas pela beleza da palavra em si.

Arganazes!

A força inteira daquela palavra, a sonoridade maiúscula, a amplidão inexata da suas sílabas, o poder que parecia dela exalar, o tremor que sentiu ao escutá-la pela primeira vez. Nem era preciso saber o seu significado para saber o quanto ela valia: palavra assim tão importante não podia estar destinada a ter apenas um significado, mas muitos.

E palavra assim tão forte foi feita para ser usada, pensou Adélia.

E começou a utilizá-la quando bem achasse que era necessária. Numa discussão com o marido, quando ele lhe perguntou por que desconfiava dos horários em que andava chegando em casa, Adélia respondeu que tinha lá os seus arganazes – e ganhou a discussão, porque o marido, sepultado sob o peso daquela nova ignorância, não soube o que responder.

Quando o merceeiro quis encrencar para devolver o dinheiro de uma lata de ervilhas que estavam estragadas, Adélia precisou dizer que ia botar a força de seus arganazes por cima dele. O homem ainda disfarçou um pouco, mas pouco depois trazia à cliente uma nova lata de ervilhas. Tudo por causa dos arganazes, soube ela, satisfeita.

E quando a coordenadora de disciplina da escola de seu filho lhe chamou para falar do mau comportamento do garoto, Adélia retrucou que aquilo não era nada mais do que umas arganazes de criança. A coordenadora concordou; talvez fossem mesmo arganazes, mas era bom ficar de olho...

Por todas estas e tantas outras, Adélia foi ganhando fama de mulher inteligente, culta, letrada. O marido a respeita como nunca, os vizinhos lhe pedem conselhos, as amigas lhe fazem consultas. À todas e todos ela atende com certa satisfação superior, colocando os arganazes sempre que achar importante.

Comigo, no entanto, ela ainda não falou. E torço para que não o faça, que continue nesta alegria simples em que sua vida se transformou.

Porque, senão, vou ter que explicar que o arganaz é só uma espécie de ratazana.


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