O CASAMENTO

Eles recém haviam se maravilhado com as belezas sérias de uma capela milenar toscana e outra vez extasiavam seus olhares com o tanto verde daquelas colinas que mais pareciam cenários, quando Marcio a pediu em casamento. Regina primeiro achou que fosse brincadeira, mas quando olhou divertida para ele e percebeu o brilho lacrimoso e emocionado de seus olhos, soube que era verdade.

Ela permaneceu em silêncio por uns segundos, o que pareceu a Márcio um tempo mais longo e antigo do que aquela paisagem que os deixava sem respirar a cada vez que a viam. Mas não era um silêncio simples, o de Regina. Nestes segundos de surpresa e alegria, ela buscou em seus pensares a memória das tantas coisas boas que já haviam compartilhado e de como as coisas ruins tinham ficado menos terríveis pelo simples fato de estarem juntos - e foi um encantamento perceber que, naquele instante sem esforços, seu coração estava cheio de lembranças.

Porque já estavam juntos há vinte anos. Há vinte anos acordavam sentindo os hálitos e olhares um do outro, há duas décadas compartiam planos e teto e lugares, há tanto tempo construíam sonhos em conjunto e se esforçavam em vivê-los, duas dezenas de anos nos quais adivinhavam com leveza os pensamentos um do outro e tinham a certeza tranqüila de que amor era a palavra mais importante. Todo este tempo em celebração. Vinte anos de casados - e agora, nesta paisagem imemorial, ele a pedia em casamento.

Um pedido de casamento na Toscana. O pedido em meio a um silêncio medieval, tão sereno que era possível escutar o rumor feliz e espesso das lágrimas escorrendo mansas por ambos os rostos.

Olhou para aquele homem que já era seu marido há vinte anos e que agora lhe pedia oficialmente para ser seu marido, como se isso fosse necessário, e soube (sabia, desde sempre), que o queria como marido por tantos mil anos que ainda tivessem pela frente.

E então respondeu que sim.


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