DANÇAR A DANÇA INVISÍVEL

Agora, sim, ela sabe: é muito mais fácil dançar a dança visível.

Esta dança que dançou a vida inteira, desde que tinha seis anos; sete horas por dia, cinco dias por semana, todos os meses do ano. A dança física, suor e exaustão, a dor que lhe enchia todos os músculos nas noites atravessadas por ensaios. A marcação das peças e dos passos, uma, duas, três, cem vezes; no dia seguinte a mesma marcação, a mesma busca da perfeição impossível. Faulkner é quem dizia: entre a dor e nada, que se escolha a dor. Tentar o mesmo movimento todo o dia, no limite da força, desconhecendo as lágrimas que chegavam de repente, dançando com estas mesmas lágrimas como se elas fossem parte do espetáculo – talvez fossem. Esta dança em que se enxergava o corpo, na qual se viam os braços e pernas e olhares em seus máximos, intensidade além de cansaço, leveza sobre esforço, e na qual quem prestasse muita atenção certamente escutaria os gemidos por baixo da música. A coreografia é finita. É maravilha que, no entanto, não consegue ir além do que permite o corpo.

A beleza da dança visível. Tão difícil, e ainda tão mais fácil (ela sabe).

Mas há agora a dança invisível. Esta dança em que não existe o fim da coreografia, em que os braços podem ir até muito depois do que conseguem, na qual as pernas alcançam o espaço em seus pulos, na qual o impossível é palavra que não existe. Os ensaios acontecem a qualquer hora e se repetem como se nunca houvessem acontecido, porque parece que não há cansaço: o corpo na dança invisível é sempre novo e pronto. A dança invisível não serve aos olhos dos outros, mas apenas aos seus próprios olhos. É só para ela; é ela quem coreografa e executa, os limites são apenas a sua imaginação e a vontade. De manhã e de madrugada, os passos invisíveis, tanta beleza.

Esta dança que acontece todos os dias, todas as horas, e existe sempre na sua cabeça.

É assim que ela dança, desde o acidente.


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