REGINA RENNÉ

O garçom acaba de servir a habitual xícara de chá à velha senhora que vem à cafeteria todas as tardes, sempre às cinco e meia, quando um rapaz que bebia o seu solitário café os interrompe, com delicadeza.

- Regina Renné, é uma emoção conhecer a senhora! Posso lhe pedir um autógrafo?

Regina Renné sorri ao moço desconhecido, que pede ao garçom a gentileza de trazer-lhe uma caneta e qualquer folha de papel. O garçom diz que vai trazer, solícito, e se afasta perguntando que será esta mulher, Regina Renné.

- Eu acho que vi todos os seus filmes, dona Regina. Sou um grande fã do seu trabalho, acho que a senhora é uma das maiores atrizes da história do nosso cinema. - e pára um instante, parece verdadeiramente emocionado com aquele encontro - Pena que a senhora não tenha feito muitos filmes nos últimos tempos, não é?

Regina Renné concorda e acrescenta que não havia gostado muito das propostas oferecidas - mas o fato é que há mais de vinte anos não recebe qualquer convite, e os tempos de celebridade há tanto haviam se acabado. Hoje era apenas uma velhinha saudosa bebendo o seu chá, incógnita e vagarosa, nesta cafeteria de bairro, onde nem os garçons sabem o seu nome.

- É isso mesmo. - comenta o rapaz. - Uma atriz de sua grandeza não pode pegar qualquer papel. Tanta história, tanto talento!... Mas os seus fãs gostariam de ver a senhora em algum novo trabalho!

Ela sorri e pensa que também gostaria, enquanto o garçom traz o papel, a caneta e um olhor novo de admiração. Regina Renné pergunta o nome do admirador e escreve para ele uma dedicatória caprichosa, demorada - tem todo o tempo do mundo.

- Posso lhe dar um beijo? - ele pergunta, respeitoso.

Ela responde que sim, não sem certa surpresa, e ele a beija na bochecha com a leveza de quem sabe que se aproxima de um ídolo. Depois, incontido, ele a abraça levemente, se despede e volta à sua mesa. Feliz.

E mais feliz fica Regina Renné. Pouco importa que seu chá já esteja frio. Pouco importa.


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