SAPATOS NOVOS

Ela andava com pouca pressa e sem compromisso pela calçada, quando o sapato na vitrine a fez parar. Um par de sapatos vermelhos, cor de perdição, com detalhes em preto e branco que, ao contrário do que poderia parecer, formavam um conjunto para o qual ela não conseguia deixar de olhar. E o desenho seguia todos os últimos conceitos da moda na Europa, pensou ela, que não perdia a leitura de nenhum número de Vogue, Marie Claire e outras quetais.

Que sapato lindo, disse a mulher para si mesma. Tentou dar um passo que a distanciasse da vitrine e da tentação, mas não conseguiu: os calçados velhos que usava nos pés também pareciam hipnotizados pela beleza dos reluzentes colegas.

Uma provadinha não vai fazer mal, imaginou ela. Só para ver como é que fica.

Nos seus pés, os calçados pareceram ficar ainda mais bonitos. E tão confortáveis, disse ela à vendedora, parece que nasceram para mim. Viu-se indo ao cinema e as luzes da sala se acendendo para que os demais pudessem enxergá-la; imaginou-se entrando num restaurante e os garfos e facas paralisando no meio do caminho; chegando numa festa e todos – todos, mesmo! – interrompendo o que faziam apenas para vislumbrar a beleza e elegância de sua entrada, homens a desejá-la e mulheres em ciúmes mortais.

Eu preciso ter este sapato, decidiu.

Assustou-se um pouco com o preço. A verdade é que nunca havia comprado um sapato tão caro como aquele. Mas a verdade é que nunca também havia visto um sapato tão bonito como aquele.

O dinheiro para o pagamento do condomínio, resolveu. Já estava devendo alguns meses, estender um mês a mais não faria maior diferença. Depois eu negocio, parcelo, converso com o síndico – resolveu.

Saiu da loja com os sapatos novos na sacola e um sorriso em que não poderia haver maior felicidade.

Agora só preciso comprar uma bolsa que combine, pensou ela.


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