SEBASTIÃO

Quando o pai de Sebastião convidou-o para assistir à leitura de contos de um escritor de quem ambos nunca haviam ouvido falar, o menino não soube bem o que responder – mas achou que aquele convite para uma programação tão estranha poderia ser algo que valesse a pena. A bem da verdade, o pai também pouco sabia o que poderia acontecer; apenas achava que pais podem ir além de convidar os filhos para jogar videogame ou para comer gorduras fantasiadas em lanchonetes insípidas.

Sebastião chega ao local com certa timidez e olha às outras pessoas que já se acomodam para a leitura. É pouca gente, duas dezenas de interessados – o escritor é mesmo um anônimo e, além disso, vem de um lugar distante – e Sebastião pode escolher bem o lugar em que sentar-se. E resolve então sentar-se na primeira fila, bem à frente de onde o escritor já se posta para ler os seus contos.

O irmão de Sebastião não agüenta o peso das brincadeiras do dia e dorme no colo do pai o peso enorme de sua pequena infância.

Mas Sebastião, não.

Presta atenção enorme às histórias que o desconhecido conta. Aos poucos, atenção acesa, parece que vai construindo o seu próprio mundo ao redor dos contos que escuta. A história que o escritor conta é apenas o ponto de partida para a história maior que Sebastião. Se no conto que escuta há um homem que canta, naqueles que sua imaginação constrói há uma orquestra inteira que começa agora a sua apresentação. Sebastião ouve as histórias e mal se contém na cadeira – quer contar junto com o homem as histórias que, ouvindo, ele também agora inventa. Mais do que isso: ele começa mesmo a contá-las. E quando a leitura acaba, não estão na cabecinha fervilhante de Sebastião apenas os doze contos que aquele homem de tão longe havia lido; estão l á as milhares de histórias que só estavam guardadas e ele ainda não sabia.

Os olhos de Sebastião brilham com esta descoberta nova: ele e o homem à sua frente são iguais.

O escritor agora escreve este conto e não sabe como ele terminará. Mas sabe que ele começou bem.


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