O AUMENTO (versão 1)

Gerson chega depois das nove e meia, noite escura e fria lá fora, Geneci a recebê-lo em seus braços claros e quentes. No seu beijo de boas vindas, o hálito que não enganava – mas não vai brigar com o marido hoje, não vai.

- Perdi o ônibus. – justificou ele, como se a mulher houvesse feito qualquer pergunta. Mas não, ela era apenas um silêncio que esperava, olhos em angustiada curiosidade. Até que ele respondeu à pergunta maior, que Geneci também não havia feito.

- O velho não me deu o aumento. O filho da mãe. – falou em calma, panela de pressão contida a custo.

A mulher muda, esperando.

- E eu expliquei bem. – diz Gerson. – Falei bem direitinho, com a gente mesmo tinha ensaiado aqui em casa. Disse que a vida anda difícil, o aluguel, a precisão de umas coisas novas para a casa, o material escolar dos meninos, os remédios que dona Dejanira precisa tomar, o mercado tão caro. E o velho, nada. Me escutando como se não me ouvisse.

Gerson respira fundo, e ela sabe onde sua fala terminará.

- Depois o velho me olhou com aquela cara de coitado que ele sabe fazer quando precisa. E então falou. O mesmo discurso, sempre. Que a fábrica vai mal, que a crise, que a concorrência, que vai precisar despedir empregados, que a hora não é de pedir aumento e sim manter o que se tem. E que mais tarde isso vai ser recompensado.

Nas outras vezes, a resposta do velho fora parecida. Uma desesperança - ela sabe tanto quanto ele que mais tarde não haverá recompensa nenhuma.

- Amanhã vou falar de novo com o velho. Pode ser que ele pense melhor e me dê este santo aumento.

Ela sorri apenas por sorrir – o marido não falará nada amanhã; e se falar, será carpir em terra morta.

- Mas agora preciso dar uma relaxada. – ele diz – Vou até o boteco tomar uma com o pessoal. Uma só, isso eu mereço. – e ele levanta o dedo, como se precisasse sublinhar.

Geneci não diz nada, enquanto vê o marido sair. Acostumada nesta tristeza. Sabe que ele não voltará antes que seja dia claro; deitará na cama com seu redobrado peso bêbado e só conseguirá acordar quando não valer mais a pena ir para o trabalho.


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