OS DIAS LONGOS

Seus anos têm mil dias e seus dias têm cem horas. Ela anda pela casa numa solidão feita de tristeza e, ainda que estejam cheios os corredores e repleto de flores o jardim, que o domingo seja um sol pleno e derramado sobre a cidade, o dia é árido e seco dentro de sua vida. Trança suas agulhas sem saber bem porque, tecendo mantas e blusas, pares de meias e casacos, que vão amanhecendo no fundo do armário e no esquecimento dos dias. Senta-se na mesma poltrona que antes - morna - lhe embalava as manhãs, e ela é um feixe de molas duras a estocar-lhe os ossos miúdos. Abre as janelas do quarto e arruma a cama intocada, ajeita sobre ela os travesseiros indormidos, espana dos livros da estante o pó inexistente, enquanto parece sentir no ventre um sopro frio de abandono. No criado-mudo, ao lado do reloginho de cabeceira que ainda marca horas inúteis num tiquetaque imutável, ela busca a foto e a olha sempre como se fosse a primeira vez: o sorriso largo e o uniforme sujo são a lembrança de uma infância tranqüila. Quando olha a foto, por mais que tente, não consegue chorar: já se gastaram todas as suas lágrimas. A cada ruído diferente, seu coração é um sobressalto e seus olhos andam em direção à porta da casa; mas é sempre o vento, um galho que cai sem motivo, passos de alguém que já sumiu na rua, nada.

Quando aquele sorriso largo saiu de casa pela última vez, dizendo que voltaria mas sabendo que não havia qualquer chance, ela sentiu que suas entranhas se revolviam como vinte anos atrás e a dor foi tanta, tanta, que só amainou com o uivo atávico de loba ferida que sua garganta deu sem reconhecer-se. Depois, repetiu o nome amado todas as vezes; e ainda agora, quando os ruídos lhe acendem um átimo de esperança que ela sabe impossível, é este o nome que seus lábios teimam em pronunciar.

A solidão que hoje comparte com seu companheiro é cheia de perguntas e não tem lugar para respostas: por quê? o que aconteceu? por quê? quanto tempo já? por quê? quanto tempo ainda? por quê?

E será apenas saudade o nome desta dor?

Ela sabe que é mais, e é por isso que teima em arrumar a cama todas as manhãs, abrir as janelas do quarto vazio, tecer as malhas nas quais enreda seus dias, olhar a porta por onde ele saiu: para não morrer de desatino (é este o nome) e porque, por mais que tenha a certeza que seu filho não voltará, sabe que esperar é o ofício da mãe.


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