O AUMENTO (versão 2)

Gerson chega na madrugada alta, quando Geneci já desistiu de esperá-lo e dorme o sono leve e preocupado com que atravessa estas noites de preocupação. Mas o marido não se preocupa com isso; acende a luz do quarto e, junto à claridade repentina e invasora, ela percebe o vermelho injetado e furioso que sai dos seus olhos.

- Fiquei no bar um tempinho. – ele fala em voz pastosa, escandindo as sílabas trôpegas. – Precisava relaxar um pouco. – ele se justificando, todas as noites uma desculpa vária.

Geneci não diz nada. Quer voltar a dormir.

Mas ele senta na cama e esconde com as mãos o olhar bêbado, esfregando o rosto e tentando clarear seu mundo daquela noite. Precisa contar sua derrota.

- O velho não me deu o aumento. O filho da mãe. – fala em calma, panela de pressão contida a custo.

A mulher muda, esperando.

- Eu expliquei que a situação aqui em casa estava difícil. – conta o marido, parece que em sua bebedeira procura as palavras no ar. – Ele nos conhece, sabe que eu não sou de ficar chorando. Mas tem o aluguel, a escola dos meninos, os remédios, a conta do supermercado. Ele nada, o velho. Me escutando com o olhar num outro lugar. Parecia que pensava em outra coisa enquanto eu falava.

Geneci em silêncio, olhos fechando sozinhos. O marido em casa, ainda que desse jeito, é um alívio.

- Depois, o velho me olhou firme e disse que não podia me dar aumento. Nem me deu muita explicação. Só aquelas de sempre. A crise, a concorrência, o custo da fábrica. Que o tempo é de manter emprego e não de pedir aumento. Um sacana, o velho. Um dia ainda digo umas para ele.

O marido bebe e fala, mas nunca vai adiante. Descarrega em casa.

- Depois, o velho ainda veio me dizer que as coisas iam ficar bem. Ficar bem, ele me disse! Que eu não me preocupasse, que não ia faltar nada para a minha família! Me diz uma coisa, Geneci: tenho ou não tenho motivo para beber? Me explica: de que jeito não vai faltar nada para a minha família se o velho não me dá um aumento?

Geneci não diz nada, mas ela sabe a resposta. O velho mesmo lhe dissera hoje à tarde.


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