O AUMENTO (versão 3)

Gerson acha melhor nem ir para casa agora. Está tão desnorteado, tão furioso com a vida, que sabe que é bem capaz de descontar em Geneci ou mesmo nas crianças. Tem feito isso seguidamente – mas fazer o quê, se a vida anda tão difícil? A mulher entende isso, claro. Tem que entender.

Então pára no boteco próximo de casa, um homem tem que ter o direito de se divertir um pouco nestes dias só de trabalho. Nesta existência de azares e tristezas.

“Me vê uma da boa aí, Manuel.”

O dono do boteco serve sempre a mesma, em silêncio: sabe a preferência do cliente de todas as noites. Todas.

Mas Gerson quer dizer algo, há um incômodo que lhe afoga o peito nesta noite.

- Pedi aumento na firma, hoje. Mas o velho não me deu, o patrão. O filho da mãe. – morde as palavras, panela de pressão contida a custo, enquanto pede outra dose. Dose dupla.

- E eu expliquei bem porque eu precisava deste aumento. – diz Gerson. – Disse que a vida anda difícil, o aluguel, a precisão de umas coisas novas para a casa, o material escolar dos meninos, os remédios que dona Dejanira precisa tomar, o mercado tão caro. E o velho, nada. Me escutando como se não me ouvisse, o bocó.

Em minutos pede outra, daí a pouco irá para casa, encontrará Geneci e as crianças, pilares que o sustentam. Mas agora não: precisa afogar as mágoas, esquecer as tristezas. Geneci sabe que é assim, ele sempre fez isso e estão juntos todos estes anos. Ela entende, pensa Gerson.

- Depois o velho me olhou com aquela cara de coitado que ele sabe fazer quando precisa. E então falou que a fábrica vai mal, que a crise, que a concorrência, que vai precisar despedir empregados, que a hora não é de pedir aumento e sim manter o que se tem. E me mandou voltar por trabalho.

O homem não vive só de trabalho, pensa ele, pensamento turvo. Vê mais uma aí, Manuel – ele pede, enquanto senta com certa dificuldade trôpega num dos banquinhos do boteco. Vai ficar ali mais um tempo, decide – a mulher vai entender quando ele chegar em casa. Vai, sim.

Mas quando chega em casa, três horas mais tarde, seus passos bêbados não encontram ninguém. As roupas da mulher não estão no armário; nem as das crianças.


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