O CINEMA

A memória é luz.

(Lembra de tudo, como se ainda tivesse os seis anos daquele dia – se mesmo as paixões que terminam são inesquecíveis, o que dizer daquelas que seguem sempre crescendo?)

O pai e ele foram a pé, conversando como dois amigos que depois viriam a ser. De mãos dadas, eles; atravessar as duas pistas da avenida era uma epopéia para suas pernas e olhos infantes. Quando chegaram, o pai comprou os ingressos e colocou um em sua mão, para que ele mesmo o entregasse ao porteiro (sentiu-se enorme, o peito inflado; se o irmão mais velho o visse, naquela hora). Depois, compraram duas garrafas de guaraná e dois pacotes de pipoca, que tinham o gosto de certa delícia nova, que só entendeu anos mais tarde. Então, entraram.

A sala já estava meio escura, um susto breve; mas logo teve novamente a segurança nas mãos do pai, enquanto desciam pelo corredor e procuravam duas poltronas vazias. Seus olhos maravilhados na semi-escuridão da enormidade da sala, as luzes laterais, aquele tanto de pessoas, o burburinho da expectativa – já sabia que ia gostar de tudo. Sentaram-se, ele e o pai, e parecia que em seu olhar não cabiam tudo o que enxergava e o que enxergaria daí a pouco.

E quando aquela enorme tela em frente se iluminou e o Canal 100 começou a passar os melhores lances de um jogo entre Flamengo e Botafogo, gigantes disputando as jogadas, então pareceu a ele que o mundo era um campo de futebol. Mas logo após, quando Didi, Dedé, Mussum e Zacarias apareceram enormes na tela e encheram de risadas o cinema, então o mundo passou a ser um bom circo – a alegria de suas risadas era do mesmo tamanho da própria alegria de estar vendo o filme.

O primeiro filme que assistia no cinema (depois, tantos outros). Com seu pai. Qualquer escritor medíocre diria que foi um momento mágico.

Quando as luzes se acenderam, pediu que esperassem até o final, e só saíram quando a tela escureceu por inteiro, o zunido fantasma do projetor reverberando em seus ouvidos encantados.

O pai lhe perguntou se havia gostado. Ele não conseguiu responder, porque não se tratava simplesmente de gostar - era muito mais que isso. Apenas riu e sacudiu a cabeça; e então perguntou se poderia comer outro pacote de pipocas.

Naquela noite inteira, ficou pensando na maravilha do cinema. Pela primeira vez não teve medo por não conseguir dormir. Não faz mal, pensou ele (lembra), cabeceando no sono que não queria: quando se descobre mundos novos, melhor estar de olhos bem abertos.


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