O ATALHO

Túlio cumpria a pé o seu roteiro habitual, quando se deparou com a novidade: à frente, ocupando a calçada na qual seus pés pisavam todos os dias, abria-se uma escavação enorme, assustadora. Ao redor dela, máquinas e homens trabalhando. Ao redor dela, máquinas e homens trabalhando. Buscou com os olhos o outro lado da rua, tentando a salvação instantânea, mas foi em vão: o buraco se estendia por toda a largura da via, corria de uma calçada à outra, impedindo o caminho dos pedestres e dos carros (só aí apercebeu-se do trânsito sereno da última quadra). Só havia cordas e placas, indicando a obra e proibindo o caminho.

Mas e agora, pensou Túlio – medo súbito –, como é que eu volto para casa?

Buscou enxergar o longe, para ver se era possível avançar pelo caminho de sempre, mas não: a calçada em que passeava sua tranquilidade diária era um jogo de entulhos e buracos. Não havia chance.

Não podem me tirar o meu caminho, pensou ele – assustado. Como é que eu volto para casa?

O caminho que fazia todos os dias, em que conhecia todas as pessoas e vitrines, cumprimentava as atendentes das lojas e conversava um pouco com o dono da banca, o caminho em que já conhecia as pedras e os postes, onda já havia decorado os letreiros, o trecho em que sua vida passava em todas as manhãs e tardes, enfim, o caminho da segurança. O trecho da certeza. O meu caminho da salvação, pensou Túlio, estão me tirando o caminho da salvação!

Havia uma placa indicando o desvio, sugerindo outro caminho aos carros e pedestres. Mas isso não pode ser, pensou Túlio, quase apavorado. Como é que vão me obrigar a pegar outro caminho? De que forma encarar as novidades que este atalho poderia trazer, as novas vitrines, os outros cães, pessoas estranhas, postes diferentes, o traçado novo da calçada? E os medos novos, a insegurança, a incerteza? Querem me atirar ao desconhecido, pensou Túlio – medo vivo, invencível. Mas eu não vou. Segurança acima de tudo.
Algum dia, esta obra vai ter que acabar. E aí, eu vou conseguir voltar para casa – pensou ele, sentando-se num cantinho ainda limpo da calçada.


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