O AMIGO MAIS CEGO

Tibério é meu amigo. E é cego.

Hoje à tarde, Tibério veio me visitar, apenas para conversar um pouco. Às vezes, faz isso. Vivo no quinto andar do edifício e, de repente, aqui está Tibério. Telefona uns minutos antes, apenas para saber se estarei em casa, e logo depois já está chegando. Para conversar.

Tibério tem uma das conversas mais agradáveis e articuladas que conheço. Sabe de tudo um pouco, nenhum assunto o pega sem nada interessante para dizer.

Mas a verdade é que sempre fico um pouco constrangido na presença de Tibério. Aqueles olhos sem brilho têm a força de me desconcertar, nunca sei direito onde colocar o meu próprio olhar. Falamos, damos risadas, trocamos idéias – mas o fato é que sempre fico me perguntando como viverá Tibério na correria cotidiana da vida. Como se move alguém que não enxerga, penso, com quantos graus de independência? Como é que não precisa de alguém que lhe faça tudo?

E então, hoje.

Tibério veio me visitar e conversamos muito. Quando quis ir embora, riu e falou que desceria pela escada; estava se achando meio gordo e precisava fazer uns exercícios.

- Escada? – perguntei.

- Tem corrimão, não tem? – me respondeu ele.

E foi. Inventei uma desculpa para acompanhá-lo, mas o fato é que eu queria estar por perto para a eventualidade de ter que ajudá-lo. Uma queda, algo assim – onde já se viu cego querer descer cinco andares de escadas sozinho?

Começamos a descer os cinco andares (eu, que detesto estas escadas; o ser mais sedentário que conheço) e, enquanto ele ia conversando tranquilamente comigo, eu apenas estava tenso, ouvindo pouco o que dizia, cuidando dos seus passos, tocando-o de leve como se estivesse a guiá-lo sem notar.

Ele, rindo pelo caminho; eu, tropeçando em minha tensão.

E de repente, como de costume, a luz do corredor se apagou, deixando as escadas numa escuridão inteira, espessa. Eu parei, subitamente assustado, negrume invadindo meus olhos – e agora, o que fazer?

Mas Tibério seguiu caminhando.


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