UM DIA ENSOLARADO DE PRIMAVERA

É tão fácil se apaixonar num dia ensolarado de primavera, pensa ele, enquanto caminha sem maior destino por esta cidade que se oferece, tão intensamente bela, a quem dela queira usufruir. As árvores parecem explodir em flores, os ipês, os flamboyants e as azaléias são ramalhetes gigantes que se abrem em maravilha. Cores e aromas misturados, invadindo, invadindo. Para onde ele olhe – nos parques, nas praças, nos pátios, nas ruas, nos canteiros, às margens do riacho triste que serpenteia por centro e bairros - haverá algum destes buquês desmedidos, jóias em flor que teimam em conceder-se sem pedir licença. A cidade parece melhor – e tudo tão simples. Ao longe, nos montes verdes, há pingos roxos, amarelos, cor de laranja, cor de rosa, vermelhos – arco-íris fracionado. É uma paisagem que enternece, diz ele, interrompendo o seu caminho e dando-se o tempo de olhar um ipê amarelo cuja beleza certamente não caberá em qualquer fotografia.

As pessoas, também. Não há quem fique indiferente a toda esta beleza nova e gratuita. Perceba quem passa e veja se não há em seus olhos um brilho a mais, certa felicidade impercebida nos demais dias, os sorrisos sem motivo, a leveza que apenas as manhãs ensolaradas e floridas concedem aos andares de qualquer um. Parte dos problemas não existe no tempo deste dia; existirá novamente amanhã ou depois, mas agora, não – que se conceda aos corações que assim desejam o direito singelo da beleza.

E as mulheres.

Elas ficam ainda mais bonitas – ele sabe. (Por isso é tão fácil apaixonar-se num dia ensolarado de primavera). As palavras são poucas e desnecessárias. Não é preciso explicar, nem procurar a razão; o melhor é apenas usufruir desta certeza. Ele olha ao redor, em seu caminho, e cada olhar é nova benção: todas as mulheres que passam são especialmente lindas (mundo, esta coisa boa que inventaram). Há nelas certa graça que se revela, levez indescoberta nos demais dias, e que faz com que o impossível aconteça e cada mulher seja ainda mais única.

É mesmo tão fácil se apaixonar num dia ensolarado de primavera. Pena que, solitário por vocação, ele não tenha hoje ninguém em vista. Mas não faz mal, pensa: mais lhe sobra para apaixonar-se pela própria cidade.


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