ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

Martin escutou três toques na campainha e atendeu pela janelinha da porta. No pequeno saguão, um senhor alinhado e cujo perfume se sentia à distância, carregava meio sem jeito um ramalhete de flores do campo. Teria seus oitenta anos, mas seus olhos eram de adolescente quando perguntou:

“Bom dia. Eu gostaria de falar com a Alice, por favor.”

“Alice não mora mais aqui.” – respondeu Martin, algo surpreso.

“Há quanto tempo?” – alarmou-se o senhor; não estava preparado para aquela resposta.

“Quatro anos, mais ou menos.”

O velho, por um momento, não soube o que dizer, chão que lhe sumia dos pés. Depois, sentindo de repente o peso de seus oitenta anos, perguntou se não poderia sentar-se um segundo para descansar e tomar um copo de água.

Sentou-se e seu desalento era tanto, que sequer percebeu, braço desabado, o ramalhete se despetalando contra o chão. Depois falou, como se falasse com ninguém.

“Vim dizer a Alice que ela é a mulher da minha vida. Precisava, preciso dizer isso.” – olhava o longe, olhos velhos – “E eu sou o homem da vida dela, eu sei. Nos separaram por fofocas bestas. Ela, moça inteligente, sempre soube disso; eu descobri só agora – e quero compensar esta bobagem, porque Alice é a mulher da minha vida.” – parou outro instante, como se não soubesse o que dizer. – “Alice é uma moça tão linda, a pele lisa e aromada, sempre aquele sorriso de primavera em seus lábios. Não há quem não a ache linda em seu frescor de juventude. Dezoito anos, imagine! E é a mulher da minha vida, eu sou o homem da vida dela, sei disso. Por isso, nós precisamos e merecemos ficar juntos. Ninguém pode nos separar mais. E agora vim aqui para dizer-lhe isso e ela já não está mais aqui... Quanta tristeza, rapaz, quanta tristeza!...” – levantou os olhos para Martin, como se apenas então se apercebesse de que aquela era uma casa estranha e que aquele moço nada tinha a ver com sua vida. – “Desculpe, nem nos conhecemos e eu estou aqui lhe incomodando.”

“Não tem problema. Fique à vontade.” – respondeu Martin, olhando com certo carinho aquele homem antigo cujo desamparo não poderia ser maior. E naquele instante decidiu que não queria ter coragem de contar que vó Alice havia morrido quatro anos atrás.


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