OS PASSEIOS COM MINHA IRMÃ

Eu gosto de sair a passear com minha irmã.

No início eu não gostava muito; nem ela, eu sei. Mas não tinha remédio: a mãe não deixa a mana sair sozinha, ela só podia passear se me levasse junto. Então era assim: se ela quisesse dar um passeio, ir na pracinha, na sorveteria, uma caminhada pelo bairro, só se eu fosse também.

E lá ia eu, meio forçado. Bem contra a vontade, no começo.

Mas agora eu bem que gosto.

Minha irmã se pinta toda para passear, coloca perfume, veste uma roupa boa. Fica bem bonita. Eu, não: meu calçãozinho e os tênis de jogar bola já estão mais do que bons.

Saímos e nunca vamos à pracinha perto da minha casa. Minha irmã quer sempre andar um pouco, e então vamos à praça que fica mais longe. Lá, ela fica sentada, enquanto eu brinco nas gangorras e no balanço.

Até que o tio chega.

Ele é muito velho, deve ter uns quarenta anos, mas minha irmã fica toda feliz quando ele aparece. Eu também: é nessa hora que o passeio fica bom.

Entramos no carro do tio e rodamos um pouco. Depois de um tempo, a gente chega numa lojinha que tem umas máquinas de videogame e o tio me compra duas horas de jogo. Aí ele e a mana passeiam sozinhos um pouquinho, ela diz para eu não sair dali de jeito nenhum porque eles vão só dar uma caminhada e já voltam. E repete para eu não me mexer. Mas imagina se eu vou sair: duas horas inteirinhas de Playstation, o que é que eu vou querer mais?

Quando terminam as duas horas, a mana já está voltando. Parece um pouco menos arrumada que no começo, deve ser de tanto caminhar.

Aí, eles me levam numa sorveteria e às vezes o tio até me compra um carrinho, uma pistola, uma coisinha de brinquedo. Geraldo, parece que este é o nome dele. Legal, o tio.

E legal, sempre legal, o passeio com minha irmã.

Pena que eu não posso contar nada para minha mãe. A mana me proibiu.


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