LIXO

No caminho, bem à minha frente, um homem remexe na lata de lixo. Não busca latas de refrigerante ou garrafas plásticas, nada que mais adiante possa se transformar em dinheiro.

O homem busca comida.

Eu paro e o observo.

Ele é todo uma sujeira grossa e bexiguenta. Carrega feridas nos braços e nas pernas, mas parece não sofrer com elas. As roupas que veste já eram restos quando as conseguiu; agora é impossível saber-lhes a forma ou a cor. Ao redor, esperando seu quinhão, um vira-latas acinzentado e esquálido abana a cauda numa felicidade de poucos motivos.

O homem não presta atenção a nada, além da lata de lixo. Seus gestos brutos e o olhar apagado procuram os pedaços de frango que alguém não quis, côdeas de qualquer pão embolorado, a banana madura além da conta, o pacote de queijo com data de validade expirada, talvez um biscoito endurecido no esquecimento da despensa.

Quando encontra algo, separa uma parte, entrega-a ao cão e ambos comem como se fosse a única coisa que existisse no mundo. Os dois me olham por um instante, mas não me percebem; há algo mais importante do que este estranho sem nada mais a fazer do que olhá-los.

Meu Deus, penso eu (e penso também no verso de Manuel Bandeira). Por que isso é assim, por que esta indignidade? Por que uns com tanto e outros com nada? Minha tristeza, minha revolta, minha solidariedade – todas verdadeiras.

Então meu telefone toca. Dou alguns passos e o homem já não está mais à minha frente. Passei por ele, seguindo o meu caminho, ele fica às minhas costas. Já não o vejo mais e minha atenção agora se empresta a qualquer novo assunto – a reunião mais adiante, as compras no supermercado, a cerveja no bar.

E aquele homem deixa de existir.


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