CIDADANIA

Tempos atrás, um escritor esteve na escola de Daniela, falando – não poderia ser diferente! – da importância do ato de ler. O homem havia falado que a falta de tempo não podia ser desculpa para não ler: quaisquer dez minutos por dia já seriam um bom começo. Dez minutos apenas, ele enfatizara, e de segunda a sexta-feira. A pessoa leva entre dois minutos, dois minutos e meio para ler a página inteira de um livro normal, de dificuldade mediana. Assim, em dez minutos, dá para ler umas quatro ou cinco páginas. Ao final da semana, o leitor já passou por algo como vinte, vinte e cinco páginas. E no final do mês, pensa Daniela, terá lido um livro de oitenta a cem páginas. Em doze meses, doze livros – uma dúzia de livros por ano! Como disse o escritor, quem lê doze livros num ano é um super leitor! Isso, com dez minutos por dia, de segunda a sexta-feira – nem precisava contar os finais de semana!... E ler nem é assim tão difícil, sabe ela. O homem havia dito mais, enfatizando que aquilo era o mais importante de toda a sua conversa. Dissera que a pessoa que não consegue entender um parágrafo também não consegue entender a vida. Simples, assim – quem não entende um parágrafo, não entende a vida. E quem não consegue entender a vida está fadado a ser um cidadão de segunda categoria, alguém que nunca pensará com suas próprias idéias, mas sim com as idéias impostas pelos outros, seja este outro um candidato próximo ou um julgador distante. Alguém que nunca conseguirá entender quais são os seus direitos e deveres de cidadão e que, assim, não conseguirá influir nos caminhos da sua rua, do seu bairro, da sua cidade.

E Daniela quer influir nos caminhos de sua cidade.

Por isso, começara a ler mais – e percebera que isso fazia diferença. Uma diferença boa.

É nisso que pensa agora, feliz, enquanto pega o seu título de eleitora para votar pela primeira vez.


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